O mistério na vida... Circulando, fluindo... nos elementos, nas estações. Palavra que brota, agir que floresce... A luz pascal que incendeia a festa da existência. A soma dos "ires-e-vires", de homens e mulheres que celebram, se encantam, e se enredam, no cuidado com o mundo, na busca do Reino.

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BOLETIM 79 REDE CELEBRA NACIONAL - 2020

 

Boletim  - Ano XXIV – Nº 791 – março 2020
 
O presente boletim traz uma proposta de retiro ou de formação que pode ser utilizada pessoalmente, ou no encontro do núcleo, inclusive com a participação de amigos da Rede e outras pessoas da comunidade. Se for feito no núcleo, o encontro pode ter a seguinte sequência: uma roda da vida [conversa informal sobre a vida]; uma roda de leitura sobre a quaresma [1]; Conversa sobre a liturgia quaresmal [2]; leitura dos textos bíblicos do 1º domingo [3]; leitura dos textos eucológicos [4]; breve silêncio para cada pessoa voltar aos textos; Partilha. No final, se houver tempo, pode-se ler os textos complementares [5]
1 A quaresma, viagem para a páscoa:
[Alexander Schmemann, teólogo oriental]2:
Quando um homem parte em viagem, deve saber para onde vai. Da mesma forma com a Quaresma. Antes de tudo, a Quaresma é uma viagem espiritual e seu destino é a Páscoa, a “Festa das Festas”. [...]
A Páscoa é muito mais do que uma festa entre as festas, muito mais que uma comemoração anual de um acontecimento passado. Quem quer que tenha participado, ainda que uma única vez, desta noite “mais luminosa que o dia”, quem quer que tenha provado esta alegria única, sabe-o bem. [...] A vida nova que, há mais de 2.000 anos, jorrou do túmulo, foi dada no dia do nosso batismo onde, como diz São Paulo, “fomos sepultados com Cristo na morte; para que, como Cristo ressuscitou dos mortos, assim também andemos nos, em novidade de vida” (Rom 6, 4)
Assim, celebramos na Páscoa a Ressurreição de Cristo como algo que aconteceu e que ainda nos acontece. Pois cada um de nós recebeu o dom desta vida nova e a faculdade de acolhe-la e vivê-la. É um dom que muda radicalmente nossa atitude em relação a todas as coisas deste mundo, inclusive a morte, e que nos dá o poder de afirmar alegremente: “A morte não existe mais! ”Certamente a morte ainda está aí, nós ainda a enfrentamos e um dia ela virá nos buscar. Porém aí reside toda a nossa fé: por sua própria morte, Cristo mudou a natureza da morte, fez dela uma passagem, transformando a tragédia das tragédias em vitória suprema. [...]
Esta é a fé da Igreja, afirmada e tornada evidente por seus inúmeros Santos. E, entretanto, será que não provamos diariamente que esta fé é raramente a nossa, que sempre perdemos e traímos a vida nova que recebemos como dom e que, na verdade, vivemos como se Cristo não houvesse ressuscitado dos mortos, como se este acontecimento único não tivesse o menor significado para nós? Tudo isso por causa de nossa fraqueza, por causa da nossa
1 Uma correção: O boletim anterior [dezembro 2019/janeiro 202], saiu com o número 77, mas na verdade é o 78, visto que o boletim de n. 77 foi o último em 2017, quando foi interrompida a sua publicação.
2 www.ecclesia.com.br/.../alexander_schmemann_a_ quaresma_ viagem_para_a_pascoa».html
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impossibilidade de viver constantemente na fé, de esperança e caridade, no nível que Cristo nos elevou quando disse: “Buscai antes de tudo o Reino de Deus e sua justiça”. Nós simplesmente esquecemos, de tanto ocupados, imersos em nossas ocupações cotidianas, e porque esquecemos, sucumbimos. E por esse esquecimento, esta queda e este pecado, nossa vida volta a ser “velha”, mesquinha, escurecida e finalmente desprovida de sentido; uma viagem desprovida de sentido em direção a um fim sem significado. Fazemos tudo para esquecer a própria morte, e eis que de repente, no meio de nossa vida tão agradável, ela está lá diante de nós. [...]
Se tomamos consciência disto então podemos compreender que a realidade da Páscoa recobre, necessita e pressupõe a quaresma. Pois então podemos compreender que as tradições litúrgicas da Igreja, todos os seus ciclos e ofícios, são feitos antes de tudo para nos ajudar a recobrar a visão e o gosto desta vida nova, que perdemos e traímos tão facilmente, e assim poderemos nos arrepender e voltar a esta vida. Como poderíamos amar e desejar algo que não conhecemos? [...] É a liturgia da Igreja que, desde o começo e ainda hoje, nos introduz, nos faz comungar a vida nova do Reino. É através de sua vida litúrgica que a Igreja nos revela algo daquilo que “o ouvido não ouviu, o olho não viu, e que não subiu ao coração do homem, mas que Deus preparou para aqueles que O amam”. E no centro desta vida litúrgica, como seu coração e seu ápice, como sol cujos raios penetram por toda parte, encontra-se a Páscoa. [...] Toda liturgia da Igreja é ordenada ao redor da Páscoa e, assim, o ano litúrgico, isto é, a sucessão de estações e festas, torna-se uma viagem, uma peregrinação para a Páscoa, para o “fim” que é ao mesmo tempo o “começo”. Fim do que é velho, começo da vida nova. (...)
Na Igreja primitiva, o principal objetivo da Quaresma era preparar ao batismo os catecúmenos, isto é, os Cristãos recém-convertidos, em um tempo que o batismo era ministrado durante a liturgia pascal. Entretanto, mesmo quando a Igreja não batizava mais adultos e a instituição do catecumenato tinha desaparecido, o sentido da Quaresma permaneceu o mesmo. Pois, apesar de sermos batizados, o que perdemos e traímos constantemente é precisamente o que recebemos no batismo. É por isso que a Páscoa é nosso retorno anual ao nosso próprio batismo, enquanto que a Quaresma é a preparação a este retorno, o esforço lento e resistente para finalmente, realizar a nossa própria “passagem, ou “páscoa” na nova vida em Cristo. E se, como veremos, a liturgia de Quaresma conserva ainda hoje seu caráter catequético e batismal, não é como um resto arqueológico do passado, mas como algo de valioso e essencial para nós. Pois, a cada ano, a Quaresma e a Páscoa nos fazem redescobrir uma vez mais e recobrar aquilo que a passagem batismal através da morte e ressureição havia operado em nós.
Uma viagem. Uma peregrinação. E, ao compreendê-la, já desde o primeiro passo na “radiosa tristeza” da Quaresma, percebemos ao longe, bem ao longe, o destino, a alegria da Páscoa, a entrada na glória do Reino. E é esta visão, o gosto antecipado da Páscoa, que torna radiosa a tristeza da Quaresma e que faz de nosso esforço na Quaresma, “primavera espiritual”. A noite pode ser longa e sombria, mas, ao longo do caminho, uma aurora misteriosa e luminosa desponta no horizonte. “Não desaponte nossa espera, ó Amigo do Homem!”
2 A liturgia quaresmal
Neste nosso peregrinar em direção à páscoa é importante deixar-nos conduzir pelo itinerário litúrgico da Igreja. Cada domingo, com seus textos bíblicos e eucológicos, com seus “ritos e preces”, nos faz adentrar no caminho que Jesus trilhou e que nos conduz à páscoa.
a) Contexto bíblico
As leituras bíblicas de cada domingo, formam um todo unitário em torno do evangelho. A relação entre as leituras torna-se evidente nos títulos que se encontram, no lecionário, antes do início de cada leitura. A concordância temática entre as leituras significa reencontrar na maturidade do Mistério de Cristo aquilo que já foi vivido de modo ainda imaturo no AT. Esta concordância temática é sustentada não apenas pelo que a exegese moderna chama de “intercontextualidade”, mas também pelo que a tradição patrística
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chama de “tipologia”. Ao fazer a leitura assídua e perseverante de um texto inclui prestar atenção ao diálogo entre as outras leituras. No missal dominical e festivo o tema dominante está contido no evangelho: o versículo do Aleluia, quase sempre concorda com o evangelho [às vezes tem caráter genérico]; a primeira leitura foi escolhida em concordância com o evangelho, para evidenciar a relação entre AT e NT. O salmo responsorial apresenta afinidade literária com a primeira leitura meditando ou ampliando o sentido da leitura. Quando uma das leituras ou o próprio evangelho cita o trecho de um salmo ele é escolhido como salmo responsorial [exemplo: 1º quaresma ano C]. A segunda leitura apresenta concordância temática nas festas e nos tempos especiais. No tempo comum, como se trata de uma leitura semicontínua, a concordância pode existir, mas não é intencional.
b) Contexto ritual
Os textos bíblicos, sobretudo nos tempos fortes, dialogam com os textos eucológicos [conjunto das orações]. Destacam-se a oração coleta que exprime a índole da celebração e o prefácio, que na sua parte central [embolismo] é uma espécie de síntese teológica do mistério do domingo ou do tempo litúrgico. Fazem parte da eucologia, as antífonas, os cantos, a oração sobre as oferendas e pós-comunhão…
3 Primeiro Domingo da Quaresma – ano A
a) Textos bíblicos
Aclamação: Louvor e glória a ti, Cristo, Palavra de Deus, Cristo, Palavra de Deus.  O homem não vive somente de pão, mas de toda a Palavra da boca de Deus.
Evangelho - Mateus 4,1-11 Jesus jejuou durante quarenta dias e foi tentado.
1ª Leitura - Gênesis 2,7-9; 3,1-7 Criação e pecado dos primeiros pais.
Salmo Responsorial 51(50)
2ª leitura - Romanos 5,12-19 Onde se multiplicou o pecado, aí superabundou a graça.
b) Textos eucológicos Antífona de entrada: Quando meu servo chamar, hei de atende-lo, Estarei com ele na tribulação. Hei de livrá-lo e glorifica-lo E lhe darei longos dias. Oração do dia: Concedei-nos, ó Deus onipotente, que, ao longo desta quaresma, possamos progredir no conhecimento de Jesus Cristo e corresponder a seu amor por uma vida santa. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.
Oração sobre as oferendas: Fazei, ó Deus, que o nosso coração corresponda a estas oferendas com as quais iniciamos nossa caminhada para a Páscoa. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.
Prefácio [Primeiro Domingo, ano A]: Na verdade, é justo e necessário, é nosso dever e salvação dar-vos graças, sempre e em todo lugar, Senhor, Pai santo, Deus eterno e todo-poderoso, por Cristo, Senhor nosso.
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Jejuando quarenta dias no deserto, Jesus consagrou a observância quaresmal. Desarmando as ciladas do antigo inimigo, ensinou-nos a vencer o fermento da maldade. Celebrando agora o mistério pascal, nós nos preparamos para a Páscoa definitiva. Enquanto esperamos a plenitude eterna. Com os anjos e todos os santos, nós vos aclamamos, cantando a uma só voz.
Prefácio V [MR p. 418 - quaresma como êxodo pascal]: Na verdade, é justo e necessário, é nosso dever e salvação louvar-vos, Pai santo, rico em misericórdia, e bendizer vosso nome, enquanto caminhamos para a Páscoa, seguindo as pegadas de Jesus Cristo, vosso Filho e Senhor nosso, mestre e modelo da humanidade, reconciliada e pacificada no amor. Vós reabris para a Igreja, durante esta quaresma, a estrada do Êxodo, para que ela, aos pés da montanha sagrada, humildemente tome consciência de sua vocação de povo da aliança. Por isso, olhando com alegria esses sinais de salvação, unidos aos anjos e aos santos, entoamos o vosso louvor, cantando a uma só voz.
Antífona da comunhão: Não só de pão vive o Homem, mas de toda a Palavra que sai da boca de Deus.
Oração pós-comunhão: Ó Deus que nos alimentaste com este pão que nutre a fé, incentiva a esperança e fortalece a caridade, dai-nos desejar o Cristo, pão vivo e verdadeiro, e viver de toda a palavra que sai de vossa boa.
4 Textos complementares à leitura:
a) Sobre as tentações de Jesus:
[Luciano Manicardi]: “Três tentações de Jesus, em três lugares diferentes indicando sinteticamente o seu caminho: o deserto, Jerusalém e o alto monte. Jesus não absolutiza a própria necessidade [1a tentação]; não cede ao desejo de grandeza e prefere permanecer no limite do cotidiano [2a tentação]; não impõe a sua messianidade com sinais extraordinários para ser aceito, mas acolhe a normalidade da condição humana” [3ª tentação]. “Jesus atravessa a tentação, não foge dela. Aceita ser, ele próprio, colocado à prova; aceita que a força da tentação tome lugar no íntimo do seu coração. Jesus habita o próprio coração, no qual somente Deus reina. Somente quem vence o poder do diabo (divisor)3 dentro de si mesmo, pode expulsar o demônio nos outros seres humanos”.
[Santo Agostinho]4: “A nossa vida, enquanto somos peregrinos neste ]mundo, não pode estar livre de tentações, pois é através delas que se realiza nosso progresso e ninguém pode conhecer-se a si mesmo sem ter sido tentado. Ninguém pode vencer sem ter combatido, nem pode combater se não tiver inimigo e tentações. Aquele que clama dos confins da terra está angustiado, mas não está abandonado. Porque foi a nós mesmos, que somos o seu corpo, que o Senhor quis prefigurar em seu próprio corpo, no qual já morreu, ressuscitou e subiu ao céu, para que os membros tenham a certeza de chegar também aonde a cabeça os precedeu”.
Mais do que tentações, o que sucede com Jesus nesta passagem do evangelho, deve ser chamado de provações. Tal como o povo de Israel que, saindo do Egito e sendo guiado por Moisés, é posto à prova por 40 anos, assim Jesus, guiado pelo Espírito, enfrenta as provações no deserto por 40 dias. No entanto, ao contrário do povo que tantas vezes sucumbiu às murmurações e, mesmo, aos ídolos, Jesus supera e vence todas as provas. A
3 Diabo é aquele que divide (diabólico), aquele que desvirtua o humano e o divino e desvia do caminho de Deus. O Apocalipse o identifica com o delator dos irmãos. (Diabólico é o oposto do simbólico, o que une).
4 Agostinho, Liturgia das Horas, II, p. 75. Ofício das leituras, do 1º dom da quaresma.
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cada proposta do Tentador, Jesus responde citando a Escritura e manifestando sua total e plena adesão e obediência a ela.
 Comparar o evangelho com a primeira e a segunda leitura.
b) O silêncio como deserto:
[Jean Yves Leloup]: “Aprenda com o silêncio a ouvir os sons interiores da sua alma, a calar-se nas discussões e assim evitar tragédias e desafetos. Aprenda com o silêncio a aceitar alguns fatos que você provocou, a ser humilde deixando o orgulho gritar lá fora, a evitar reclamações vazias e sem sentido. Aprenda com o silêncio a reparar nas coisas mais simples, valorizar o que é belo, ouvir o que faz algum sentido. (...) Aprenda com o silêncio que tudo tem um ciclo, como as marés que insistem em ir e voltar, os pássaros que migram e voltam ao mesmo lugar. Como a Terra que faz a volta completa sobre o seu próprio eixo, complete a sua tarefa. (...) Aprenda com o silêncio a relaxar, mesmo no pior trânsito, na maior das cobranças, na briga mais acalorada, na discussão entre familiares. (...) Quando uma pessoa conquista o verdadeiro poder, toda a antiga violência acaba em benevolência. A violência é sinal de fraqueza, a benevolência é indício de poder. Os grandes mestres sabem ser severos e rigorosos sem renegarem a mais perfeita quietude e benevolência. Deus, que é o supremo poder, age com tamanha quietude que grande parte da humanidade nem percebe a Sua ação. ‘O êxito ou o fracasso de sua vida não depende de quanta força você põe em uma tentativa, mas da persistência no que fizer’.”
c) A Oração da Quaresma
Esta pequena oração, atribuída a Santo Efrém, grande mestre e poeta cristão do século IV, é recitada no final de cada Oficio da Quaresma na Liturgia Ortodoxa e ocupa um lugar importante na quaresma, porque enumera de um modo singular, os aspectos positivos (integridade, humildade, paciência, amor) e negativos (preguiça, tristeza, dominação, vás palavras) da conversão: Senhor e Mestre de minha vida, afasta de mim o espírito de preguiça, de tristeza, de dominação e das vãs palavras. Concede-me a mim, teu servo, um espírito de integridade, de humildade, de paciência e de amor. Sim, Senhor e Rei, concede ver meus pecados e não julgar meus irmãos porque és bendito pelos séculos dos séculos. Amém.
Na primeira parte refere-se às enfermidades: a) A preguiça, nega qualquer possibilidade de mudança, é a raiz de todo pecado porque envenena a energia espiritual em sua própria fonte; b) A tristeza impede a pessoa de ver o lado positivo dos fatos e das pessoas; c) A vanglória é depravação fundamental na relação interpessoal, pois avalia tudo a partir das próprias necessidades, desejos e julgamentos, subordinando os outros pela dominação ou pela indiferença e desprezo; d) Finalmente a palavra, dom supremo porque Deus se revelou como Verbo; quando desviada do seu propósito e origem divina, se torna palavra vã, capaz de envenenar e matar.
Em seguida, a oração se move em direção às atitudes positivas: a) A integridade aponta para a inteireza e a completude da pessoa; b) A humildade é a verdade que leva a ver as coisas como são, como manifestação de Deus; c) A paciência não se irrita e nem julga com facilidade; d) Por fim o amor, meta de toda a peregrinação espiritual.
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A oração termina pedindo a Deus o conhecimento das próprias faltas e a tolerância em relação aos irmãos. Quem conhece a si mesmo é mais lento em julgar os demais e esta é a condição para vencer o orgulho