O mistério na vida... Circulando, fluindo... nos elementos, nas estações. Palavra que brota, agir que floresce... A luz pascal que incendeia a festa da existência. A soma dos "ires-e-vires", de homens e mulheres que celebram, se encantam, e se enredam, no cuidado com o mundo, na busca do Reino.

CONFIRA NOSSAS PUBLICAÇÕES

Voltar
bulletin blog

TEOLOGIA E LITURGIA NA PERSPECTIVA DA AMÉRICA LATINA:

Tear Online | São Leopoldo | v.1 n. 1 | p. 16-39 | jan.-jun. 2012 - Disponível em: <http://periodicos.est.edu.br/tear> - Tear Online é licenciada sob uma Licença Creative Commons.

TEOLOGIA E LITURGIA NA PERSPECTIVA DA AMÉRICA LATINA:
AVANÇOS E DESAFIOS1
Theology and Liturgy in Latin America perspective: progresses and challenges
Ione Buyst 2

Resumo:  O texto retrata a prática e o estudo da liturgia no contexto latino-americano. Tem como objetivo
provocar uma reflexão sobre a liturgia na Igreja pós-conciliar latino-americana, principalmente a
partir de Medellín. Trata-se de um esboço incompleto, um pequeno ensaio que tenta mapear
princípios norteadores para uma possível avaliação da liturgia. Num primeiro momento, situando
a ‘liturgia’ como celebração, como realidade teologal e espiritual, e como disciplina teológica no
conjunto das outras disciplinas. Num segundo momento, traz um esboço da teologia da liturgia
segundo o Concílio Vaticano II (Sacrosanctum Concilium - SC) e, em seguida, na perspectiva da
teologia latino-americana. Num terceiro momento, enfoca o desafio da formação litúrgica,
enfatizando procedimentos metodológicos e pedagógicos.
Palavras-chave:
Liturgia. Teologia da Liturgia. Formação Litúrgica e América Latina.
Abstract:
The text portrays the practice and study of liturgy in the Latin American context. It aims to provoke
a reflection on the liturgy in the post-conciliar Church in Latin America, mainly from Medellin. This
is an incomplete sketch, a short essay that tries to map guiding principles for a possible evaluation
of liturgy. At first, it places the ‘liturgy’ as celebration, as spiritual and theological reality, and as a
theological discipline among others. Secondly, it brings a sketch of the theology of the liturgy
according to the Second Vatican Council (Sacrosanctum Concilium – SC) and then, in the
perspective of Latin American theology. Thirdly, it focuses on the challenge of liturgical formation,
emphasizing methodological and pedagogical procedures.
Keywords:
Liturgy. Theology of Liturgy. Liturgical Formation and Latin America.
1 Texto publicado no livro Eu sou o aquele que sou. BUYST, Ione. Teologia e liturgia na perspectiva da América
Latina; avanços e desafios. In: FAVRETTO, Clair & RAMPON, Ivanir Antonio (orgs.). EU SOU AQUELE QUE SOU; uma
homenagem aos 25 anos do Instituto de Teologia e Pastoral. Berthier, Passo Fundo, 2008, pp. 38-76.
2 Doutora em Teologia Dogmática com Concentração em Liturgia, pelo Centro de Liturgia da Pontifícia Faculdade de
Teologia Nossa Senhora da Assunção, São Paulo, SP, Brasil. Contato: buyli@bol.com.br
— 17 —
Tear Online | São Leopoldo | v.1 n. 1 | p. 16-39 | jan.-jun. 2012
Disponível em: <http://periodicos.est.edu.br/tear>
***
Introdução
A preparação da V Conferência do Celam (Conselho Episcopal Latino-Americano) e sua
realização em maio 2007, em Aparecida, (SP, Brasil) reaqueceu os debates sobre antigos temas
centrais que estavam de alguma maneira esquecidos ou estrategicamente silenciados: a teologia
da libertação com sua opção pelos pobres e suas comunidades eclesiais de base, com sua
cristologia e eclesiologia com características próprias, com sua relação com a práxis libertadora e
seu método ver-julgar-agir... Seguiria a Conferência e o documento final de Aparecida a tradição
original do magistério latino-americano iniciada em Medellín, agora num contexto profundamente
modificado do ponto de vista político, social, econômico, cultural e também eclesial? Teria clima
para isso no mundo ‘globalizado’, dominado pela lógica do mercado e caracterizado pelo
pluralismo cultural e religioso? Teria a Igreja latino-americana - diminuída drasticamente em
número de fiéis e visibilidade social, controlada pela cúpula da Igreja Católica Romana mais que
nunca centralizadora - teria ela força para dizer uma palavra nova, significativa? Contrariando as
expectativas, o Documento de Aparecida (DA) insiste em retomar o método ver-julgar-agir,
reafirma claramente a opção evangélica pelos pobres excluídos do sistema, reforçando seu
fundamento cristológico; acentua o valor insubstituível das CEBs (Comunidades Esclesiais de Base)
e até o termo ‘libertação’ reapareceu, embora timidamente e com vários adjetivos (cristã,
autêntica, integral...).3 O eixo do documento de Aparecida é a missão a serviço da vida no
contexto atual, levada avante pelos discípulos/as missionários/as, marcados/as por uma
experiência profunda de encontro com Jesus Cristo.
Precisaremos certamente de muito tempo para aprofundar o lugar que a liturgia poderia
ou deveria ocupar no rumo apontado por ‘Aparecida’. 4 É um trabalho a ser levado avante em
‘mutirão’. Mas cabe aqui ao menos provocar uma reflexão sobre a liturgia na Igreja pós-conciliar
latino-americana, principalmente a partir de Medellín. Trata-se de um esboço incompleto, um
pequeno ensaio que tenta mapear princípios norteadores para uma possível avaliação da liturgia.
Num primeiro momento, situo a ‘liturgia’ como celebração, como realidade teologal e espiritual, e
como disciplina teológica no conjunto das outras disciplinas. Num segundo momento, vem um
esboço da teologia da liturgia segundo o Concílio Vaticano II (SC, Sacrosanctum Concilium) e, em
seguida, na perspectiva da teologia latino-americana. Num terceiro momento, enfoco o desafio da
formação litúrgica, enfatizando procedimentos metodológicos e pedagógicos.
O que entendemos por ‘liturgia’?
Liturgia como ‘celebração’, como ação ritual
O termo ‘liturgia’ diz respeito antes de tudo ao conjunto das celebrações do povo cristão:
a celebração eucarística, a celebração dos outros sacramentos e sacramentais, o ano litúrgico, o
ofício divino, as exéquias; diz respeito também à música litúrgica e ao espaço litúrgico.
3 Não entro no mérito das modificações introduzidas no texto depois de sua votação no plenário. O assunto foi
bastante divulgado e a comparação entre as duas redações pode ser encontrado em várias publicações.
4 Quer me parecer que, infelizmente, a liturgia não é contemplada como deveria. Não se aproveitou muito da
contribuição enviada pela Comissão Episcopal Pastoral para a Liturgia (CEPL) da CNBB, juntamente com a ASLI
(Associação dos Liturgistas do Brasil), com o título ‘Liturgia, fonte e ápice da vida dos discípulos e missionários de
Jesus Cristo’. Nem mesmo encontramos o verbete ‘liturgia’ no índice do documento.
— 18 —
Tear Online | São Leopoldo | v.1 n. 1 | p. 16-39 | jan.-jun. 2012
Disponível em: <http://periodicos.est.edu.br/tear>
Do ponto de vista antropológico, podemos dizer que as celebrações litúrgicas são ações
rituais. Nenhuma pessoa, nenhum povo ou grupo social vive sem ritos. Precisamos de ritos e mitos
assim como precisamos de ar, alimentação, convivência. É a linguagem com a qual expressamos
nossa identidade, nossas convicções profundas, o sentido da vida. E hoje sabemos muito bem que,
sem a linguagem, não há consciência. Cada povo, cada grupo cultural tem sua maneira de
ritualizar o sentido da existência. Seus símbolos, mitos e ritos, suas festas... são expressão de sua
identidade e permitem a integração dos membros no grupo e criam o sentido de pertença. Como
cristãos, temos nossas festas, nossos símbolos, ‘mitos’ e ritos... para expressar nossa identidade
pessoal e eclesial, baseada em nossa relação com Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, no
Espírito Santo. Na Igreja Católica Romana encontramos, ao lado das liturgias promulgadas
oficialmente, inúmeras expressões rituais de fé na chamada ‘piedade popular’ e na ‘Igreja da
caminhada’: folias, procissões, romarias, vias-sacras, ofícios, vigílias, celebrações da palavra...
Também novos movimentos que foram aparecendo nas últimas décadas criaram ritos
diferenciados que os caracterizam.
É preciso fazer uma distinção entre a proposta ritual e sua execução. A proposta ritual
encontra-se nos livros litúrgicos, com o roteiro das ações rituais, com os textos das orações,
leituras e cantos, com a indicação de gestos e movimentos e, também, com uma introdução que
aponta, entre outras, para o sentido teológico daquela determinada celebração. Mas a liturgia
prevista nos livros ou nos roteiros, só se torna ‘liturgia’ de fato, ao ser ‘executada’, ‘realizada’,
‘celebrada’ por assembleias litúrgicas, reunidas no ‘aqui e agora’ da história, expressando-se em
sua própria ‘linguagem’ cultural. Nestas assembleias é que acontece o encontro entre Deus e o seu
povo. A qualidade deste encontro dependerá da qualidade teológica do rito proposto, da
densidade espiritual com a qual a celebração é preparada e coordenada pelos ministros e
ministras e da participação consciente, atual, exterior e interior... de toda a assembleia litúrgica.
Sem isto, não se pode a rigor falar de ‘liturgia’. Dependerá, pois, da redescoberta da ‘ritualidade’,
capaz de nos devolver o prazer de celebrar, superando o ritualismo que ‘congela’ o rito e leva a
um estéril formalismo.
Liturgia como realidade teologal e espiritual
Ao falar da liturgia como encontro entre Deus e o seu povo, estamos considerando a
liturgia como uma realidade teologal, como o fez a Mediator Dei (Pio XII, 1947) e como confirmou
e completou o Concilio Vaticano II, principalmente em SC (1963), assumindo as teses centrais do
Movimento Litúrgico, a partir de estudos bíblicos, patrísticos, históricos, teológicos. Não se trata
de uma inovação, mas de uma ‘volta às fontes’. A partir daí, a liturgia não pode mais ser
considerada como a parte ‘externa’ e ‘sensível’ do ‘culto’, um conjunto de ritos e cerimônias
bonitas, decorativas. Não pode mais ser reduzida a uma expressão da ‘virtude da religião’ ou da
devoção, por iniciativa do ser humano frente ao Criador. Também não podemos restringir a
liturgia a seus aspectos jurídicos e suas rubricas, como se a eficácia e o valor da liturgia
dependessem de uma minuciosa obediência às prescrições ritualísticas. A liturgia é um encontro
do Deus vivo com o seu povo, aqui e agora, para fazê-lo participante de sua vida, para viver em
comunhão com ele, para que o projeto de Deus se realize. É participação no próprio mistério de
Deus. O Cristo Ressuscitado, com seu Espírito, está presente na assembleia eclesial reunida para
fazê-la passar, junto com ele, da morte para a vida e se tornar assim, no meio do mundo, uma
semente do Reino de Deus, o início do mundo novo que brota da ressurreição de Jesus, o Cristo.
— 19 —
Tear Online | São Leopoldo | v.1 n. 1 | p. 16-39 | jan.-jun. 2012
Disponível em: <http://periodicos.est.edu.br/tear>
A presença do Senhor Ressuscitado não deve ser entendida como uma presença
psicológica, sentida subjetivamente, emocionalmente; trata-se de uma presença objetiva,
espiritual, sacramental, i. é, através dos ‘sinais sensíveis’ da ação ritual: a assembleia das irmãs e
dos irmãos reunidos, a atuação da presidência e outros ministérios, a proclamação e interpretação
da Palavra, as preces e orações, os gestos sacramentais (banho batismal, unção crismal, partilha
do pão e do vinho eucaristizados...), a música ritual, o espaço litúrgico... É participando da ação
ritual que entramos comunitariamente em comunhão com Deus. A participação comunitária
supõe o envolvimento pessoal de cada participante nesta ação. É importante sublinhar que nossa
subjetividade deve abrir-se à realidade objetiva da ação ritual, na qual o Cristo Ressuscitado vem
ao nosso encontro.
Liturgia é uma rua de ‘duas mãos’: é antes de tudo ação pascal de Deus que vem
santificar seu povo; é glorificação de Deus por parte do povo, que acolhe a vida divina e responde
à ação salvadora de Deus louvando, agradecendo, vivendo a vida nova que vem do Cristo e se
comprometendo com o crescimento do Reino de Deus no mundo, até que se complete a história
da salvação, até que se realize plenamente o Reino de Deus. Assim, não basta ‘ir à missa’ e
‘assistir’; é preciso participar ativamente, com conhecimento de causa, com empenho espiritual e
fazer com que aquilo que celebramos transforme nossa vida pessoal, comunitária, social e nos
torne testemunhas e missionários/as.
Partindo destas afirmações, é fácil entender que a liturgia é a ‘a primeira e necessária
fonte, da qual os fiéis deverão haurir [tirar, beber] o espírito genuìnamente cristão’.5 É nela que
recebemos sacramentalmente o Espírito Santo, que nos torna capazes para o sacerdócio do povo
santo e para a profecia, tanto nas ações litúrgicas quanto na vida cotidiana e na missão. A
característica da experiência de Deus na liturgia é de ser uma experiência ritual, que leva a sério e
passa necessariamente pela corporeidade. A liturgia - e a espiritualidade na qual está banhada -
supõem uma antropologia na qual corpo, alma, mente e espírito formam uma unidade. Requerem
uma teologia que leve a sério a liturgia enquanto ação ritual. Costumo falar da ‘dobradinha’
inseparável: ‘corporal e espiritual’: a espiritualidade litúrgica está ‘casada’ com a ritualidade. Tratase
de entrar no mistério, de ‘conhecer’ Deus, através da participação na ação ritual. Um texto
pouco conhecido da SC (e mal traduzido) nos ajuda a perceber esta união. Falando da participação
do povo na liturgia eucarística, diz: “para que os fiéis não assistam a este mistério de fé como
estranhos ou espectadores mudos, mas que, compreendendo-o bem [o mistério] em seus ritos e
preces, participem da sagrada ação consciente, piedosa e ativamente.” (SC 48)6 Conhecemos o
mistério, pelos ritos e preces e somente desta forma poderemos participar de verdade na ação
sagrada. Não basta conhecer bem ‘os ritos e as preces’ em seu lado ‘externo’ digamos: é preciso
penetrar em seu sentido teológico, espiritual, mistérico. E aí é bom lembrar que o silêncio e a
interioridade são parte essencial da ritualidade.
‘Liturgia’ como disciplina teológica
O termo ‘liturgia’ é usado também para designar uma disciplina que consta do currículo
dos institutos de teologia. Dependendo do instituto, esta disciplina encontra-se entre as disciplinas
5 Cf. SC 14
6 A tradução da ‘Paulus’ reza: “para que os fiéis (...) participem da ação sagrada, consciente, piedosa e ativamente,
por meio de uma boa compreensão dos ritos e orações...” (Documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II, 2001,
Col. Clássicos de Bolso, p. 53 - grifo meu). O texto original não fala de compreender os ritos e preces, mas de
compreender o mistério, por meio dos ritos e preces. São duas coisas muito diferentes.
— 20 —
Tear Online | São Leopoldo | v.1 n. 1 | p. 16-39 | jan.-jun. 2012
Disponível em: <http://periodicos.est.edu.br/tear>
teológicas ou na disciplina ‘pastoral’; em alguns institutos, ‘liturgia’ abrange também o estudo dos
sacramentos, em outras há uma disciplina chamada ‘teologia dos sacramentos’, independente da
‘liturgia’. Por de trás desta diferença e das opções feitas está o conceito que se tem de liturgia e de
sacramentos.
Em primeiro lugar, os sacramentos são celebrações litúrgicas e deveriam ser tratados
como tais. O sentido teológico de cada sacramento não é independente da ação ritual, mas está
como que ‘embutido’ nela; não está limitado à ‘fórmula’ e ao gesto sacramental central, mas inclui
todos os elementos e todo o desenrolar da celebração, desde os ritos iniciais até os finais. Por isso,
o certo seria centrar o estudo de cada sacramento na ação ritual, desvendando e compreendendo
qual é a ação de Deus nela realizada, qual o mistério nela celebrado. Esta é a proposta coerente
com a renovação litúrgica do Concilio Vaticano II. Daí a necessidade de se passar do método de
especulação da teologia escolástica para o método mistagógico, que parte da ação de Deus
expressa na ação ritual. O primeiro analisa os sacramentos aplicando conceitos filosóficos
(existência, essência, efeitos...), sem levar em conta a celebração deste sacramento. O segundo
método parte da própria ação ritual, da celebração, e procura, através de uma compreensão
orante, introduzir no mistério celebrado.7
Quanto à liturgia, como vimos acima, toda ela é ‘sacramental’, realidade teologal: é
palavra e efetiva ação de Deus Pai, Filho e Espírito Santo na comunidade eclesial reunida, através
dos ‘sinais sensíveis’ da ação ritual, gerando em nós uma experiência de Deus, uma compreensão
de seu mistério, uma participação em sua vida. Sendo a liturgia uma realidade ‘teologal’, o estudo
da liturgia terá necessariamente uma dimensão ‘teo-lógica’ 8: deverá procurar compreender a
experiência teologal oferecida pela celebração litúrgica e elaborar uma reflexão racional,
sistemática, sobre a mesma. Por isso, é indispensável que, nos institutos de teologia, a ‘teologia da
liturgia’ conste entre as disciplinas teológicas, ao lado do estudo da cristologia, da eclesiologia, da
pneumatologia, da escatologia etc..., com a devida carga-horária e professores/as
especializados/as.
Evidentemente, a liturgia supõe também a arte da celebração e a vivência espiritual, para
que a realidade teologal aconteça, de fato. Daí a necessidade de formação na prática celebrativa e
na prática de organização pastoral, assim como na espiritualidade e na mistagogia. Por isso,
estudar liturgia inclui necessariamente também esta dimensão pastoral, sem ficar a ela reduzida.
Assim o expressam os documentos do Magistério:
“A sagrada liturgia deve ser tida, nos seminários e casas religiosas de estudos, por uma
das disciplinas necessárias e mais importantes, nas faculdades de teologia como disciplina
principal, e seja ensinada tanto sob o aspecto teológico e histórico, quanto espiritual, pastoral e
jurídico” (SC 16).
“A importância da correta formação litúrgica dos futuros padres assume uma especial
importância devido à união íntima da liturgia com a doutrina da fé, união que deve ser sublinhada
7 Vejam a comparação entre os dois métodos e a aplicação do método mistagógico ao estudo da celebração
eucarística em: GIRAUDO, Num só corpo; tratado mistagógico sobre a eucaristia, São Paulo, Loyola, 2003 pp. 1-13.
Vejam ainda: TABORDA, Francisco. Nas fontes da vida cristã; uma teologia do batismo-crisma, São Paulo, Loyola,
2001 (Col. Theologica, 4); TABORDA, Francisco, Da celebração à teologia; por uma abordagem mistagógica da
teologia dos sacramentos, In: REB 64 (2004) 588-615, fasc. 255.
8 ‘Teologal’ é da ordem da experiência, que ultrapassa a razão; ‘teológica’ é da ordem da reflexão sistemática e da
formulação racional, que procura compreender e explicitar a experiência vivida. Cf. DE CLERCK, Paul. Une théologie
de la liturgie pour la gloire de Dieu et le salut du monde. La Maison-Dieu. Paris, 221; 2001/1: 7-30, citação da p. 13.
— 21 —
Tear Online | São Leopoldo | v.1 n. 1 | p. 16-39 | jan.-jun. 2012
Disponível em: <http://periodicos.est.edu.br/tear>
no ensino desta disciplina. É na prática da sua oração que a Igreja exprime principalmente a sua fé,
de modo que ‘a regra da oração fixou a regra da fé’. Por isso é preciso conservar fielmente a ’lex
orandi’ (a regra da oração) para evitar que seja posta em perigo a ‘lex credendi’ (a regra da fé),
mas vice-versa os teólogos devem interrogar com cuidado a tradição litúrgica, principalmente
quando estudam a natureza da Igreja ou a doutrina e a disciplina dos sacramentos”.9
Teologia da liturgia no conjunto das disciplinas teológicas
Qual é o lugar destinado à ‘liturgia’ no conjunto das disciplinas teológicas? Está sendo
difícil recuperar a unidade perdida entre bíblia, patrística, liturgia, espiritualidade, teologia
sistemática, pastoral. O ponto comum, o ponto que deveria ser de convergência é o dado da fé.
Teologia é reflexão crítica sobre o dado da fé, num determinado contexto (social, político,
cultural...). Mas, onde encontramos o dado da fé? Nas Sagradas Escrituras e na Liturgia, as duas
fontes da teologia. Geralmente, a primeira é levada a sério nos estudos teológicos; mas, será que
poderemos dizer o mesmo da segunda, da liturgia como fonte da teologia? Qual o instituto de
liturgia, quais os manuais de teologia que levam isto em conta? No entanto, ao celebrar,
vivenciamos sacramentalmente a realidade humano-divina sobre a qual a teologia se debruça para
compreendê-la racionalmente, até onde for possível: Deus, Jesus Cristo, o Espírito Santo, a história
da salvação, o mistério pascal, o Reino, a Igreja, a salvação, a graça, a missão, o ‘escaton’... Por
isso, é necessário que as várias disciplinas teológicas estejam atentas a esta inter-relação, de
modo que, no estudo do tratado de Deus, na cristologia, na pneumatologia, na eclesiologia, na
escatologia, na missiologia, na ética etc... seja levada em conta a realidade sacramental vivida na
ação litúrgica. Como falar de Jesus Cristo sem considerar sua presença viva, atual, sacramental,
nas celebrações litúrgicas (Cf. SC 7)? Como discorrer teologicamente sobre o mistério pascal sem
falar sobre nossa participação neste mistério pela celebração litúrgica, expressa de forma nuclear
na liturgia batismal (Fomos sepultados com Cristo na sua morte pelo batismo, para que, como
Cristo ressurgiu dos mortos pela glória do Pai, assim também nós vivamos uma vida nova...) e na
aclamação eucarística que se encontra no coração da celebração eucarística (Eis o mistério da fé!
Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!)?
Como estudar o mistério, a vida e a missão da Igreja, sem falar da experiência como membros
atuantes da assembleia litúrgica, realidade teologal, corpo de Cristo reunido no Espírito Santo,
congregada e enviada em missão? Como elaborar uma pneumatologia sem se referir à ação do
Espírito Santo expressa nas epicleses, introduzidas durante a renovação litúrgica conciliar? Como
falar de Deus e da história da salvação sem fazer referência a tantos gestos e textos litúrgicos nos
quais fazemos continuamente memória desta história, como por exemplo: na liturgia da Palavra,
no ofício divino, nas celebrações do ano litúrgico, nas orações de ordenação de bispos,
presbíteros, diáconos, na oração de consagração de mulheres, na profissão religiosa, na bênção da
água batismal...? Como elaborar uma teologia mística e espiritual, sem levar em conta a
participação na vida divina pela participação na vida litúrgica? Como falar da ética cristã sem fazer
referência ao compromisso de viver a vida nova em Cristo e no Espírito expresso em cada um dos
sacramentos?
O inverso também é verdade: como estudar liturgia sem fazer a relação com os outros
tratados da teologia e sem levar a uma vivência espiritual e um compromisso de vida cristã? ‘Lex
orandi’ e ‘lex credendi’ se implicam mutuamente. Hoje em dia é comum acrescentar um terceiro
9 Sagrada Congregação para a educação católica, Instrução sobre a Formação litúrgica nos seminários, Roma 1979,
nº 44.
— 22 —
Tear Online | São Leopoldo | v.1 n. 1 | p. 16-39 | jan.-jun. 2012
Disponível em: <http://periodicos.est.edu.br/tear>
elemento: ‘lex agendi’, ou ’lex vivendi’: aquilo que cremos e celebramos na liturgia deve se tornar
também a ‘lei’ do nosso viver, da nossa ação no mundo, da nossa ética.10 Em última análise, nosso
modo de viver seguindo os valores que adotamos é a ‘pedra de toque’ tanto da teologia, quanto da
celebração litúrgica. É sobre ele que versará o julgamento final de nosso existir (Cf. Mt 25, 31-46).
Qual é o lugar que a liturgia, de fato, ocupa nos institutos de teologia, principalmente na
formação dos futuros ministros ordenados? Quer me parecer que a observação crítica feita sobre
a formação litúrgica do clero por um liturgista italiano quinze anos atrás, infelizmente é válida
também para o Brasil e ainda continua atual:
"Esse [o estudo da liturgia] continua sendo um ponto frágil da reforma. O programa de
estudos nos seminários e nas universidades eclesiásticas geralmente não dá à liturgia entre as
matérias principais e indispensáveis o lugar que a SC lhe designa, de modo que seja tratada nos
seus vários aspectos teológico, histórico, espiritual, pastoral, jurídico. Também não foi feita a
coordenação das várias matérias - especialmente teologia, eclesiologia, sacramentária, S.
Escritura - com a liturgia, para dar à formação dos seminaristas caráter unitário (SC 16). Essa
unidade deve realizar-se não só no campo doutrinal, mas também na ligação entre estudo e vida.
A liturgia conhecida, vivida e celebrada com a intensidade, a variedade, a integralidade e
abrangência propostas pela reforma é o eixo da formação seminarística." 11
Por fim, teologia da liturgia não é algo para ser reservado aos institutos de teologia. Um
povo que vem às celebrações sem uma consciência da realidade teologal na qual está envolvido,
não está ‘participando’ realmente e, portanto, não poderá a partir daí alimentar espiritualmente
sua vida cristã, não estará apto para assumir sua vocação missionária, nem mesmo gerar vocações
maduras para os ministérios. Qual é a compreensão teológica que o povo cristão recebe na
catequese, nos encontros de formação e nas próprias celebrações, principalmente nas homilias?
Isso depende muito de cada comunidade e de cada diocese. Há uma relação circular entre a
formação litúrgica do povo e a formação nos seminários, casas de formação e institutos de
teologia. Não se deve apostar tudo na formação dos futuros ministros ordenados. É preciso dar a
mesma atenção à formação teológico-litúrgica de todo o povo de Deus, porque ali são colocados
os alicerces, inclusive para a formação dos futuros ministros.
Teologia da liturgia
A ‘liturgia’ enquanto celebração é expressão ritual, simbólico-sacramental de nossa fé. A
teologia é reflexão crítica sobre o dado da fé, num determinado contexto (social, político,
cultural...); a teologia da liturgia procura aprofundar o sentido daquilo que celebramos para dar
‘razão de nossa esperança’ em consonância com as outras disciplinas teológicas. Normalmente,
portanto, deve haver uma inter-relação entre estas duas expressões de nossa fé: mudanças na
celebração litúrgica estão relacionadas com mudanças teológicas, assim como mudanças na
compreensão teológica de nossa fé e da liturgia, deveriam normalmente acarretar mudanças na
expressão ritual.
Vejamos em grandes linhas esta inter-relação, enfocando a teologia da liturgia: 1) de
acordo com o Concilio Vaticano II; 2) na perspectiva da América Latina.
10 Cf. TABORDA, Francisco, ‘Lex orandi – lex credendi,’ origem, sentido e implicações de um axioma teológico, In:
Perspectiva Teológica, Belo Horizonte, 35, (2003) 71-86.
11 PASQUALETTI, G. Reforma litúrgica. In: SARTORE, D. & TRIACCA, A.M. (org.) Dicionário de liturgia. São Paulo,
Paulinas/Paulistas, 1992, p. 986-1001. Citação da p. 997.
— 23 —
Tear Online | São Leopoldo | v.1 n. 1 | p. 16-39 | jan.-jun. 2012
Disponível em: <http://periodicos.est.edu.br/tear>
A teologia da liturgia segundo Concilio Vaticano II
O Concilio Vaticano II foi um momento forte e fecundo de renovação de toda a Igreja
Católica Romana, ajudada pela participação das outras Igrejas convidadas. Devemos entender a
renovação litúrgica conciliar no conjunto da renovação eclesial e teológica: a reviravolta na
compreensão da Igreja como povo sacerdotal e de sua missão profética na sociedade a serviço do
Reino de Deus; a devolução da Bíblia na mão do povo e a insistência na escuta meditativa da
Palavra de Deus na comunidade reunida para ‘ouvir o que o Espírito diz às Igrejas’, como palavra
viva e atual no hoje da vida do povo; a redescoberta da ressurreição e da centralidade do mistério
pascal; a tomada de consciência da ação do Espírito Santo na Igreja e no mundo; a superação da
noção causal de ‘sacramento’ e a volta à compreensão simbólica, a partir de uma abordagem
antropológica; a imperiosa necessidade do ecumenismo e do diálogo inter-religioso...
Dentro desta perspectiva, lembremos de forma sucinta algumas das grandes linhas da
teologia da liturgia recuperada pela renovação conciliar e as exigências que daí decorrem 12:
1) A liturgia é ação transformadora do Cristo pascal na ação ritual memorial
realizada pela comunidade eclesial na força do Espírito Santo, a serviço da
humanidade inteira. É ao mesmo tempo ação do Deus-Trindade (santificação,
pascalização) e ação da Igreja (glorificação de Deus).
2) É atualização do mistério pascal de Cristo, no qual é revelado o mistério de Deus,
do ser humano e da própria história da humanidade.
3) Não há liturgia sem que a comunidade celebrante invoque ao Pai pedindo o envio
e atuação do Espírito Santo. Celebramos no Espírito. Daí a importância das
epicleses.
4) É toda a comunidade eclesial, todo o povo santo e sacerdotal, que celebra a
liturgia, e não somente a hierarquia. Os ministérios estão – como o próprio termo
indica – a ‘serviço’: do Espírito Santo e do povo celebrante.
12 Textos consultados, em ordem cronológica de sua publicação: SCHMIDT, H. Constitution de la sainte liturgie; texte,
genèse, commentaire, documents. Editions Lumen Vitae, Bruxelles, 1966; MARSILI, S. Teologia Litúrgica, In:
SARTORE, D & TRIACCA, A.M. (org) Dicionário de Liturgia. São Paulo, Paulinas/Paulistas, 1992, pp. 1174-87; IRWIN,
Kevin, Pour une théologie liturgique oecuménique, In: La Maison-Dieu, 221, 2000/1, 73-99; LAMBERTS, Jozef,
Liturgical Studies: a ‘marginal phemenomenon’? In: Questions Liturgiques, Leuven, 81 (2000) 139-150; DE CLERCK,
Paul. Une théologie de la liturgie pour la gloire de Dieu et le salut du monde, La Maison-Dieu. Paris, 221, 2001/1: 7-
30; BARNARD, Marcel & POST, Paul. Het ritueel bestek; antropologische kernwoorden van de liturgie. Zoetermeer
(Ndl), Meinema, 2001; BONACCORSO, Giorgio. I principali orientamenti dello studio della liturgia, In: CARR, Ephrem
(a cura di - ) Liturgia, opus trinitatis; epistemologia liturgica. Atti del VI Congresso Internazionale di Liturgia, Roma,
Pontifício Istituto Liturgico, 31 ottobre – 3 novembre 2001, Pontificio Ateneo S. Anselmo, Roma, 2002 (Studia
Anselmiana, 133; Analecta Liturgica, 24), pp. 95-121; GIRAUDO, Cesare. Num só Corpo; tratado mistagógico sobre
a eucaristia, São Paulo, Loyola, 2003; GRILLO, Andrea. Il rinnovamento liturgico tra prima e seconda svolta
antropologica; il presupposto rituale nell'epoca del postmoderno. Pontificia Facoltà Teologica Dell' Italia
Meridionale, Molfetta, Quaderni della Rivista do Scienze religiosi (n. 2), Edizioni Vivere In, Roma, 2004; FLORES,
Juan Javier. Introdução à teologia litúrgica. São Paulo, Paulinas, 2006 (Col. Liturgia fundamental); Michael AUNE.
Liturgy and Theology; Rethinking the Relationship. In: Worship, jan. 2007, p. 46ss.; Worship, march 2007, p. 141ss.
— 24 —
Tear Online | São Leopoldo | v.1 n. 1 | p. 16-39 | jan.-jun. 2012
Disponível em: <http://periodicos.est.edu.br/tear>
5) A liturgia é ação constitutiva da Igreja; é celebrando os mistérios que nos
tornamos sempre mais ‘corpo de Cristo’ no Espírito Santo. É ação da Igreja (na
diversidade de tempos e culturas), celebrada pela Igreja (assembleia litúrgica), e a
bem da Igreja (a liturgia faz a Igreja ser e crescer).
6) A assembleia litúrgica é sacramento, epifania (manifestação) da Igreja.
7) A única Igreja de Cristo está presente na multiplicidade de igrejas locais. Cada
Igreja local é sacramento da Igreja universal e sua liturgia não pode deixar de
manifestar esta realidade. Aqui surge o desafio para o ecumenismo. A unidade
querida por Cristo é um dado e um imperativo e o batismo faz de todos os
membros das Igrejas cristãs, um só corpo num só Espírito.
8) Toda a liturgia é sacramental: ação do Pai, do Filho e do Espírito Santo por meio
dos ‘sinais sensíveis’ da ação ritual na comunidade reunida. Participando dos
‘mistérios’ (os sacramentos, as celebrações litúrgicas), expressamos e
participamos da comunhão trinitária, da vida divina.
9) Entre os sinais sensíveis, simbólico-sacramentais, destacam-se: a assembleia
litúrgica com seus ministérios, a proclamação e interpretação da Palavra, as ações
simbólicas, gestos e movimentos do corpo, as preces e orações, a música, a
organização dos elementos que compõem o espaço litúrgico, a decoração do
ambiente...
10) Os ‘sinais sensíveis’ são tomados da realidade humana, determinada
culturalmente. Daí a necessidade de adaptação e inculturação. Por ser universal,
a liturgia deve expressar o mistério cristão na linguagem cultural da comunidade
local.
11) Quando são proclamadas e interpretadas as leituras bíblicas na assembleia
litúrgica, é o próprio Cristo que dirige sua palavra viva, salvadora, curadora,
crítica, instigante, provocadora, animadora, transformadora... à comunidade
reunida. É Palavra sempre nova, adequada às circunstâncias mutantes de nossa
vida pessoal, eclesial, social. Palavra que leva a uma constante renovação de vida,
a um compromisso com a missão, com o Reino, com a transformação da
sociedade. O salmo responsorial, a homilia e as preces dos fiéis restaurados pela
renovação conciliar realçam o caráter dialogal da liturgia da Palavra e sua
encarnação em cada realidade.
12) A eucaristia reencontra sua teologia pascal: memorial da morte e ressurreição do
Senhor, comunhão de todos num só Corpo e num só Espírito, antecipação do
‘banquete’ do Reino de Deus, quando Deus será tudo em todos/as.
13) A música ritual é parte integrante da liturgia e, como tal, deve expressar o
mistério celebrado naquele dia, naquele tipo de celebração e naquele momento
ritual.
14) O espaço litúrgico não pode ser apenas funcional, mas também mistagógico, nos
conduzindo para dentro do mistério.
15) Liturgia é celebração sacramental da história da salvação, momento atual que
traz presente o fato salvífico passado e sua realização plena no futuro. Passado e
— 25 —
Tear Online | São Leopoldo | v.1 n. 1 | p. 16-39 | jan.-jun. 2012
Disponível em: <http://periodicos.est.edu.br/tear>
presente encontram-se no ‘hoje’ litúrgico. Daí a importância da santificação do
tempo (diário, semanal, anual) pela celebração do ofício divino e do ano litúrgico.
16) A liturgia tem uma forte dimensão escatológica. É anúncio e antecipação
sacramental do Reino de Deus, sinal da renovação de todas as coisas em Cristo.
Como tal, nos faz atentos/as aos sinais do Reino acontecendo na realidade
pessoal e social é também aos sinais do anti-Reino, do mundo ‘caduco’, que
merece ser denunciado.
17) Liturgia é expressão de uma Igreja a serviço da renovação pascal de todas as
coisas em Cristo. Como tal, inclui o compromisso da ética evangélica. Celebrar a
páscoa leva a viver a páscoa e fazer com que aconteça na sociedade, no mundo
todo, inclusive na conservação e restauração das reservas naturais do planeta.
18) A mística (espiritualidade) cristã tem a liturgia como sua primeira e necessária
fonte. (SC 14). É nela que fazemos juntos/as experiência de Deus, do mistério
pascal, da ação transformadora do Espírito, da comunidade renovada pela páscoa
de Cristo. Ela constitui a referência para as outras formas de piedade e devoção.
19) A participação ativa, consciente, externa e interna, plena, frutuosa... requer a
devida formação de todo o povo de Deus e a organização da pastoral litúrgica,
desde a equipe litúrgica nas comunidades e paróquias até à comissões ou
serviços diocesanos, regionais e nacionais.
A teologia da liturgia na América Latina 13
13 Textos consultados, em ordem alfabética dos autores: ADAM, Júlio Cezar, Romaria da Terra – Brasiliens
Landkämpfer auf der Suche nach Lebensräumen; eine empirisch-liturgiewissenschaftliche Untersuchung. Stuttgart,
W. Kohlhammer, 2005; ALTEMEYER, Fernando Jr. Vida e morte da Teologia da Libertação, In:
<www.adital.com.br>, 14.05.07; BALBINOT, Egídio, Liturgia e política: a dimensão política da liturgia nas Romarias
da Terra em Santa Catarina, Chapecó, Grifos, 1998; BALBINOT, Egídio, Onde e como a política pode ‘entrar’ na
liturgia, In: Caminhando com o Itepa, Passo Fundo RS, (23) 87, dez. 2007:26-40; BARROS, Marcelo, O reencontro
do primeiro amor; a recepção da reforma litúrgica do Concílio na América Latina, In: Medellín, Bogotá, 86 (1996)
139-165; BRIGHENTI, Agenor, Critérios para a leitura do Documento de Aparecida (I). In: <www.adital.com.br>,
28.08.07; BUYST, Ione, Como estudar liturgia; princípios de ciência litúrgica, 5ª ed. São Paulo, Paulus, 2007 (Col.
Liturgia e Teologia), pp. 67-142; BUYST, Ione, Medellín na liturgia, In REB (Revista Eclesiástica Brasileira) vol. 48,
fasc. 192, dez.. 1988, pp. 860-875; BUYST, Ione, Liturgia no documento de Medellín, Revista de Liturgia, São Paulo,
n. 62, 1984; BUYST, Ione, Liturgia na América Latina, celebração da Páscoa do Povo? Revista de Liturgia, São Paulo,
n. 81, 1987; BUYST, Ione, Liturgia e compromisso libertador, Revista de Liturgia, São Paulo, n. 88, 1988; BUYST,
Ione, Liturgia, acontecimento teologal, Revista de Liturgia, São Paulo, n. 95, 1989; BUYST, Ione, A liturgia no Brasil
depois do oitavo, Revista de Liturgia, São Paulo, n. 114, 1992; BUYST, Ione, Recordação da vida - um novo
elemento ritual para uma liturgia “ligada à vida”, In: GOOSSENS, Anita et alii. A esperança dos pobres vive -
Coletânea em homenagem aos 80 anos de José Comblin. São Paulo, Paulus, 2003, p. 377-387; CEPL (Comissão
Episcopal para a Liturgia) & ASLI (Associação dos Liturgistas do Brasil), Liturgia, fonte e ápice da vida dos discípulos
e missionários de Jesus Cristo – uma contribuição para a V Conferência de Aparecida, Opúsculo, Brasília/São Paulo,
[2007]; COMBLIN, José, Desafíos sociales y eclesiales en América Latina de hoy (Encuentro en la Universidad Arcis
de Valparaíso-Chile, el 06 de Noviembre de 2007), Cuadernos Movimiento Tambien Somos Iglesia-Chile, Correo:
<somosiglesiachile@hotmail.com>; COMBLIN, José, O papel histórico de Aparecida, Revista Eclesiástica Brasileira
(REB), ago. 2007); COMBLIN, José, Puebla, 20 años después, Cuadernos Movimiento Tambien Somos Iglesia-Chile,
Correo: <somosiglesiachile@hotmail.com>, Fuente: Revista Reflexión y Liberación (Chile) Nº 44, [s/d];
GONÇALVES, Alfredo J. Gênese, crise e desafios da Teologia da Libertação, In <www.adital.com.br> 26/06/07;
GUTIERREZ M, Gustavo, Bento XVI e a opção pelos pobres, In: <www.adital.com.br>, 18/07/07; SANTOS, Carlos C.,
A Conferência de Aparecida: chaves de leitura (I e II), In: <www.adital.com.br> 25.10.2007; TABORDA, Francisco,
— 26 —
Tear Online | São Leopoldo | v.1 n. 1 | p. 16-39 | jan.-jun. 2012
Disponível em: <http://periodicos.est.edu.br/tear>
No ambiente do pós-concílio, foi surgindo na Igreja na América Latina e no Caribe uma
reflexão teológica original a partir da realidade de opressão e miséria dos pobres no continente: a
teologia da libertação. De que forma a liturgia acompanhou e incorporou este pensamento
teológico original, latino-americano? Seria necessário realizar pesquisas para responder a esta
questão. Na falta destas, podemos ao menos apontar para características da teologia litúrgica
latino-americana. E é de se perguntar: no contexto atual terão chances de vingar?
Uma teologia original, latino-americana
Graças à existência do CELAM (Conselho Episcopal Latino-americano)14, a renovação
conciliar no continente latino-americano foi pensada por todas as Igrejas particulares católicoromanas
em conjunto, a partir da Conferência de Medellín (1968). Ali, a Igreja na América Latina
começou a tomar consciência de sua personalidade e responsabilidade específica e se fez ouvir de
uma forma nova, própria e decidida no contexto da situação histórica, sócio-econômica e política
do continente 15, suscitando inclusive uma nova vertente teológica: a teologia da libertação,
abraçada por uns, odiada por outros. O que caracteriza a teologia da libertação? Apontemos aqui
três elementos:
- Antes de tudo, o fato de fazer teologia e de viver a fé a partir do seguimento de Jesus
Cristo Libertador, Servo Sofredor, na inserção e convivência no mundo dos pobres, das classes
sociais exploradas, em sua situação real, social, política, cultural, de ‘povo crucificado’, injustiçado,
vivendo em situações desumanas, procurando se livrar da situação de exclusão. Toma-se
consciência de que esta situação é planejada deliberadamente pelos responsáveis da ‘ordem
mundial’ e que se caracteriza teologicamente falando como ‘pecado estrutural’; é o ‘pecado do
mundo’, o pecado da injustiça e da morte generalizada dos pobres, perpetuado nas estruturas
sociais, políticas, econômicas e culturais da sociedade. As pessoas que fazem esta experiência
começam a ver o mundo, a Igreja e o próprio Deus ‘a partir de baixo’ e entendem que a salvação
querida por Deus não se situa numa esfera ‘espiritual’ à parte, fora desta realidade.
- Assim nasce a ‘Igreja dos pobres’, isto é, a Igreja incorporada no mundo dos pobres,
principalmente através das comunidades eclesiais de base, tornando-se ‘sacramento histórico’ da
salvação. ‘A Igreja que nasce dos pobres pelo Espírito de Deus’ não é uma Igreja fechada sobre si
mesma, preocupada somente com sua própria salvação: assume sua missão profética na
transformação da sociedade. Acredita que ‘um outro mundo é possível’. Vive em função desta
missão, como fez Jesus. De fato, não somente os próprios pobres, mas a sociedade como um todo
Sacramentos, práxis e festa; para uma teologia latino-americana dos sacramentos, Vozes, Petrópolis, 1987;
VALENTINI NETO, Antonio, A liturgia no documento de Aparecida, In: Caminhando com o Itepa, Passo Fundo RS,
(23) 87, dez. 2007: 19-25; VELASCO, Rufino, La Iglesia de los pobres: eclesiologia en la teologia de la liberación, In:
La Iglesia de Jesús, Libro virtual, <www.servicioskoinonia.org/biblioteca>; VIGIL, José Maria (org.), Bajar de la cruz
a los pobres; cristologia de la liberación, ASETT (Asociación Ecumênica de Teólogos/as Del Tercer Mundo), 2. ed.
Libro virtual, <www.servicioskoinonia.org/biblioteca>; VV.AA., Aparecida, renacer de una esperanza. Ameríndia,
Libro virtual, <www.servicioskoinonia.org.br/biblioteca>.
14 Criado em 1955.
15 Comblin chama a atenção para a novidade e importância deste fato: “Com Medellin e Puebla surgia na Igreja
universal um fato novo: ao lado das vozes da Igreja de Roma, outra voz se lançava, não oposta, mas distinta.
Nunca, desde 1054, data da separação definitiva entre [a Igreja do] Oriente e Ocidente havia aparecido outro
pólo.” (In: Puebla, 20 años despues...). Infelizmente, tentou-se de todas as maneiras possíveis calar esta voz.
— 27 —
Tear Online | São Leopoldo | v.1 n. 1 | p. 16-39 | jan.-jun. 2012
Disponível em: <http://periodicos.est.edu.br/tear>
deve ser salva, colocada no rumo do Reino de Deus, o que poderá ocorrer somente com a
mudança simultânea dos indivíduos e das estruturas da sociedade.
- Um instrumento valioso nesta missão transformadora é o ‘metodo ver-julgar-agir’ que
conjuga olhar científico e evangélico sobre a realidade, conjuga conhecimento e ação (‘práxis’),
porque o objetivo final do fazer teológico é a libertação efetiva, progressiva (política, social,
cultural, religiosa...) do povo pobre injustiçado e a superação das estruturas injustas da sociedade,
como sinal da chegada do Reino. Este método supõe várias ‘mediações’ entre a fé e a realidade.
Para ler a realidade à luz da fé, é preciso recorrer ao estudo exegético e hermenêutico das
sagradas escrituras (e não se contentar com uma leitura fundamentalista), mas também às
ciências históricas, sociais, antropológicas, políticas, econômicas, ecológicas, psicológicas,
pedagógicas...16 Sem a ajuda destas últimas não estaremos em condições de compreender a
sociedade e de atuar nela de maneira eficiente.
Inter-relação entre teologia da libertação e liturgia: necessidade de pesquisas
Mudanças na teologia deveriam normalmente provocar mudanças na liturgia. O
Documento de Medellín deu orientações precisas e preciosas a respeito disso, quando fez uma
releitura dos princípios da SC do Concílio Vaticano II, na perspectiva eclesial e pastoral da
Constituição pastoral Gaudium et Spes e da encíclica Populorum Progressio do papa Paulo VI, e
dentro da realidade do continente latino-americano. No capítulo 9 diz que “...a celebração
litúrgica coroa e comporta um compromisso com a realidade humana, com o desenvolvimento e
com a promoção” - “A celebração litúrgica (...) traz a exigência que leva a fé a comprometer-se
com as realidades humanas” - “Para que a liturgia possa proporcionar plenamente essas
contribuições, é necessário (...) manter-se numa situação dinâmica que acompanhe tudo o que
houver de sadio no processo de evolução da humanidade; levar a uma experiência vital de união
entre a fé, a liturgia e a vida cotidiana, em virtude da qual chegue o cristão ao testemunho de
Cristo...” . Na Introdução afirma: “Cristo, ativamente presente em nossa história, antecipa seu
gesto escatológico (...) naquelas conquistas que, como sinais indicadores do futuro, o ser humano
vai fazendo através de uma atividade realizada no amor.” E lembra que, como fez o povo de Israel
outrora na saída do Egito, devemos saber reconhecer nestes sinais ‘seu passo que salva, quando se
dá (...) a passagem de condições menos humanas a condições mais humanas’. ‘Passagem’ é
páscoa! Se Deus está passando em nossa história, tornando mais humana a vida de seu povo,
então é preciso que isto seja proclamado e celebrado na liturgia, como páscoa de Cristo
acontecendo em nossa páscoa.17
Até que ponto esta inter-relação entre fé, teologia, liturgia e vida cotidiana preconizada
por Medellín se concretiza na liturgia do continente? Em outras palavras: de que forma a teologia
da libertação (lex credendi) repercute, a partir dos anos ’70 e ’80, na celebração, na formação
litúrgica, na espiritualidade, na teologia da liturgia (lex orandi) e na pastoral litúrgica no
continente latino-americano?
Para responder a esta pergunta fundamental, seriam necessárias inúmeras pesquisas em
todos os recantos do continente, abrangendo diversas áreas:
16 E não somente a mediação filosófica como acontece na teologia clássica.
17 Cf. ´Páscoa de Cristo na páscoa da gente, páscoa da gente na páscoa de Cristo’, In: CNBB, Animação da vida
litúrgica no Brasil, 1989, Doc. 43, n. 300.
— 28 —
Tear Online | São Leopoldo | v.1 n. 1 | p. 16-39 | jan.-jun. 2012
Disponível em: <http://periodicos.est.edu.br/tear>
- A vida litúrgica das comunidades, paróquias, dioceses, regiões, as diversas pastorais, os
movimentos..., incluindo a música ritual e a organização do espaço litúrgico.
- A adaptação dos rituais realizada pelas Conferências Episcopais no continente. (A título
de exemplo: no Brasil, a oração eucarística n. 5, os novos rituais do batismo, do matrimônio e das
exéquias... incorporaram as características da teologia latino-americana? Como?)
- O ‘Ofício Divino das Comunidades’, criado em 1988; incorporou a perspectiva teológica
latino-americana na recordação da vida, nos hinos, na introdução e na linguagem dos salmos,
cânticos bíblicos e orações.
- As chamadas ‘liturgias emergentes’, expressões litúrgicas que foram surgindo,
informalmente, nas bases da Igreja no continente: Novenas de Natal, Vias-Sacras, Romarias da
Terra e da Água, Vigílias de oração e protesto político; celebrações por ocasião de ocupação de
terras ou moradias... Cabe aqui uma referência à Campanha da Fraternidade, organizada
anualmente pela CNBB como vivência comunitária da quaresma, a partir de um determinado
problema crucial sentido em nível nacional. Talvez seja uma das poucas iniciativas assumidas por
todas as dioceses (com raríssimas e deploráveis omissões), ligando fé e vida, com o uso do método
‘ver-julgar-agir’ e levando a compromissos duráveis, como o surgimento de pastorais específicas a
partir dos ‘temas’ e realidades trabalhadas.
- As orientações de pastoral litúrgica nos documentos e estudos das Conferências
Episcopais.
- Os encontros de formação e pastoral litúrgica em nível continental, nacional, regional,
diocesana.
- A caminhada da ‘Rede Celebra’ 18, espalhada em inúmeros núcleos em todos os Estados
do Brasil, promovendo o florescimento e capacitação dos ministérios, principalmente nas
comunidades de base, com uma metodologia que liga reflexão e experiência celebrativa, com o
uso do laboratório litúrgico, na busca da inteireza do ser na vivência ritual. 19
- O ensino da liturgia nos Institutos de Teologia e cursos afins.
- O ensino da liturgia nos cursos de atualização e especialização em liturgia, assim como
as monografias, as dissertações de mestrado e as teses de doutorado.
- Os manuais e outros livros de estudo da liturgia, incluindo a sacramentologia; um olhar
empírico observa que são poucos os autores que assumiram as teses da teologia latino-americana.
Uma análise crítica especial mereceria o Manual de Liturgia, de quatro volumes, publicado pelo
CELAM; cabe a pergunta: por que os vários autores não incorporaram (excetuando em três ou
quatro capítulos) a linha teológica latino-americana dos próprios documentos do CELAM, por
exemplo, ao tratar da celebração do mistério pascal e da assembleia litúrgica do povo de Deus?
- Outras publicações relativas à