O mistério na vida... Circulando, fluindo... nos elementos, nas estações. Palavra que brota, agir que floresce... A luz pascal que incendeia a festa da existência. A soma dos "ires-e-vires", de homens e mulheres que celebram, se encantam, e se enredam, no cuidado com o mundo, na busca do Reino.

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Medellín: inspiração e raízes - José Oscar Beozzo

Medellín: inspiração e raízes

José Oscar BEOZZO


 

INTRODUÇÃO

A II Conferência Geral do Episcopado Latino-americano, aberta por Paulo VI, em Bogotá, a 24 de agosto de 1968 e realizada, em Medellin, de 26 de agosto a 6 de setembro do mesmo ano, encontra suas raízes e inspiração, de uma parte, nos clamores e esperanças do povo latino-americano e caribenho e, de outro, no Concílio Vaticano II (1962-1965), e nos processos e sonhos por ele desencadeados na vida da igreja.

A América Latina era o único continente que, ao chegar ao Concílio, já contava com uma estrutura episcopal de caráter colegial, o Conselho Episcopal Latino-americano, o CELAM, fundado no Rio de Janeiro (RJ), em 1955.

Seu Presidente, o Cardeal do México, Mons. Dario Miranda y Gómez, entretanto, ao chegar a Roma, para a abertura do Concílio, em outubro de 1962, recebeu uma notificação da Cúria Romana de que o CELAM estava proibido de convocar reuniões durante o Concílio.

A imprevista suspensão da assembléia conciliar, logo em sua primeira sessão, a pedido do cardeal Achille Lienart, arcebispo de Lille na França e de outros cardeais que o secundaram, para que os bispos e conferências episcopais pudessem se consultar para elaborar as listas de candidatos às comissões conciliares, provocou o primeiro encontro não oficial dos bispos do CELAM[1].

Da segunda sessão, em diante, já dentro do clima de liberdade do Concílio, o CELAM realizará suas assembléias, durante o próprio Concílio, além de inúmeras sessões de estudos, em função dos debates conciliares.

Destas reuniões, foi brotando a convicção da necessidade de um grande esforço conjunto do continente para encaminhar a aplicação à vida da igreja da América Latina, das resoluções, decretos e reformas urgidas pelo Concílio.

Espiritualmente, Medellin, deita raízes no grupo da "Igreja dos Pobres" que se organizou já na primeira sessão do Concílio, com alguns bispos da Europa, da África e da América Latina, por inspiração de Paul Gauthier que fora professor no seminário maior de Dijon na França e partira para Nazaré, onde levava vida de pobreza como operário na imitação de Jesus Carpinteiro[2]. Ao final do Concílio, este grupo propôs o Pacto das Catacumbas, em que se comprometia em levar vida de pobreza e de compromisso com as lutas dos pobres e solidariedade em suas necessidades e penas[3].

O desejo de uma II Conferência do Episcopado Latino-americano surgiu também da consciência de que temas fundamentais para o continente não conseguiam entrar na pauta conciliar determinada, em grande parte, pelos episcopados centro-europeus. Mesmo a grande esperança depositada no esquema XVII, transformado em esquema XIII e finalmente na constituição pastoral sobre a Igreja no mundo de hoje, a Gaudium et Spes, cumpriu-se apenas parcialmente. Os países subdesenvolvidos da América Latina, África e Ásia, não sentiam que seus problemas fossem compreendidos e, finalmente, assumidos pela já sobrecarregada agenda conciliar.

Muitos fizeram chegar sua voz a Paulo VI que lhes prometeu que o clamor e as angústias desses povos e da necessária solidariedade internacional seriam por ele retomados numa encíclica, após o Concílio. A prometida encíclica saiu em 1967, com o título de Desenvolvimento dos Povos, a Populorum Progressio (PP), exercendo profunda e duradoura influência sobre o continente e sobre as atitudes da Igreja, frente ao desenvolvimento, " o novo nome da paz", no dizer da própria encíclica. Tornou-se também, ao lado dos documentos do Vaticano II, uma das principais fontes de Medellin.

 

I - SONHANDO COM UMA SEGUNDA CONFERÊNCIA DO EPISCOPADO

Ao mesmo tempo em que o CELAM apontava ao Papa, as lacunas da agenda conciliar, apresentava, com redobrada insistência, o desejo de uma segunda conferência geral do episcopado que desse seqüência à primeira realizada no Rio de Janeiro (RJ), em 1955, e cujo principal fruto fora o nascimento do próprio CELAM. Em carta ao Cardeal Confalonieri, presidente da CAL (Pontifícia Comissão para a América Latina), Mons. Manoel Larrain, bispo de Talca, no Chile e presidente do CELAM, transmitia o conteúdo da resolução aprovada, ao iniciar-se a IV sessão do Concílio, no dia 23 de setembro de 1965:

"[…] los delegados del CELAM autorizaron la presidencia, que de acuerdo con la CAL, busque la manera de hacer de esta iniciativa (Congresso Eucarístico de Bogotá, em 1968), la ocasión de realizar una labor práctica, concreta, efectiva y de conjunto entre el Episcopado latinoamericano, en aquellas materias que se consideren más útiles y urgentes para el desarrollo de apostolado del continente"[4].

Perfilavam-se entre os objetivos desta nova conferência, uma revisão das conclusões da I Conferência Geral do Rio de Janeiro (RJ) mas, sobretudo, a aplicação à América Latina das Constituições, Decretos e Declarações do Concílio Vaticano II, a partir das realidades e aspirações, dores e esperanças do continente.

No discurso de 23 de novembro de 1965, aos cerca de 600 bispos latino-americanos, por ocasião do décimo aniversário do CELAM, Paulo VI acena, por primeira vez, publicamente, com a realização da II Conferência, como meio de estabelecer um plano de pastoral para a aplicação do Concílio no continente: "Diremo anzi di più: sotto certi aspectti e per certe materie potrà anche essere utile ed opportuno studiare um piano a livello continentale attraverso il vostro Consiglio Episcopale, nella sua funzione di organo di contatto e di collaborazione tra le Conferenze Episcopali dell’America Latina".[5]

Muitas dificuldades práticas nascidas, de um lado, da instável situação político-social da América Latina e, de outro, dos problemas entre o CELAM e a Santa Sé, representada pela CAL, na repartição das responsabilidades na organização da II Conferência e no estabelecimento do regulamento, atrasaram sua convocação que só chegou às mãos da presidência do CELAM, em janeiro de 1968[6], a escassos seis meses da sua realização.

Felizmente, o CELAM confiando na recepção positiva da idéia da parte de Paulo VI, havia-se lançado, por meio dos departamentos, a uma série de encontros que, na prática, foram se constituindo numa preparação imediata para Medellin.

Dentre os principais que terão uma clara repercussão em Medellin, podemos elencar:

- Baños, no Equador, de 5 a 8 de junho de 1966: Encontro Episcopal Latino-americano sobre os temas da educação, apostolado dos leigos e ação social;

- Mar del Plata, na Argentina, de 11 a 16 de outubro de 1966: X Assembléia Ordinária do CELAM sobre o desenvolvimento e a integração latino-americana;[7]

- Buga, na Colômbia, de 12 a 18 de fevereiro de 1967: I Encontro Latino-americano de Universidades Católicas, sobre a missão da universidade católica na América Latina[8] e, de 19 a 25 de fevereiro, seminário de bispos sobre a presença da Igreja na realidade universitária latino-americana;

Melgar, na Colômbia, de 20 a 27 de abril de 1968: I Encontro Latino-americano de Pastoral em Territórios de Missão, sobre a pastoral missionária;[9]

Itapuã, em Salvador no Brasil, de 12 a 19 de março de 1968, complementando Mar del Plata, no tema da Pastoral Social da Igreja.[10]

Cabe lembrar ainda a realização, em Lima, Peru, em fins de 1967, do I Encontro Latino-americano de Vocações; o Encontro Latino-Americano sôbre o Diaconato Permanente, em San Miguel, Buenos Aires, de 19 a 25 de maio de 1968, promovido pelo Departamento de Vocações do CELAM, cujo documento final foi apresentado na II Conferência[11] e, finalmente, em Medellin, de 11 a 18 de agosto de 1968, às vésperas da II Conferência, do Congresso Internacional de Catequese, cujas conclusões terão influência direta sobre o documento 8 de Medellin, consagrado à Catequese.[12]

 

II - NO MÉTODO, O SEGREDO DE MEDELLIN

O que diferenciou profundamente Vaticano II de Medellin foi o método de trabalho adotado.

Partindo da teologia dos sinais dos tempos, o ponto de partida, em Medellin, foi sempre o estudo atento da realidade tanto econômica, política e social quanto eclesial do continente latino-americano e caribenho.

O segundo passo consistiu em identificar as interpelações que brotavam da realidade, analisando-as à luz da palavra de Deus, do Vaticano II e do magistério e da experiência de toda a igreja.

O terceiro passo, quiçá o mais importante, foi o de propor pistas de ação pastoral, visando transformar, no sentido do reino de Deus e da libertação dos pobres, a realidade atravessada por estruturas de pecado e pelo clamor e esperança dos pequenos.

Para este estudo da realidade, Medellin valeu-se de conferências preparatórias. Previstas para serem cinco, tornaram-se sete[13] e, pouco antes do início dos trabalhos, foi-lhe acrescentada uma oitava, sob a responsabilidade do sacerdote brasileiro, Affonso Felipe Gregory, diretor do CERIS (Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais - orgão de pesquisa e assessoria anexo à Conferência Episcopal Brasileira), encarregado de oferecer aos participantes, os dados sócio-religiosos do continente e uma análise da sua significação para a pastoral.

Os trabalhos em grupo, nas comissões, permitiu cruzar a experiência pessoal dos participantes com os dados apresentados, colocar em comum a visão dos bispos, com a prática de leigos e leigas, religiosos e religiosas, peritos e teólogos, párocos do clero diocesano e observadores não católicos.

A mecânica de trabalho previa que os textos elaborados nas comissões fossem submetidos ao plenário para sugestões e modificações. Uma vez incorporadas estas modificações, deviam ser confiados a uma comissão de redação encarregada de sintetizar e fundir os textos das 16 comissões num único documento final. A falta de tempo e também a convicção de que a síntese faria perder muito da riqueza dos textos das comissões, levou à feliz decisão de transformar nas conclusões da II Conferência, a contribuição de cada uma das comissões, depois de submetidas a um voto do plenário.

Se nos voltarmos agora para relação entre Medellin e o Vaticano II, podemos dizer que a II Conferência transformou-se num exemplo singular de recepção colegial do Concílio, pelas igrejas da América Latina e do Caribe.

Lançamos, pois, um olhar sobre como se processou esta recepção e quais as suas características mais relevantes.[14]

 

III - VATICANO II: UMA RECEPÇÃO FIEL, CRIATIVA, SELETIVA

Medellin é certamente o intento maior realizado pelas igrejas de todo um continente para receber o Concílio Vaticano II. Essa dimensão está expressa já no título escolhido para a II Conferência: "A Igreja na atual transformação da América Latina, à luz do Concílio".

Em todo acontecimento eclesial, mormente naqueles, como os Concílios, destinados a marcar em profundidade a vida da igreja, três elementos devem ser tomados em consideração: o evento em si, os documentos nele aprovados e finalmente a sua recepção.

A recepção é o elemento de verificação mais importante, pois revela que dimensões foram capazes de passar para o quotidiano da igreja, que outras deixaram de ser assimiladas e até mesmo as que foram seletivamente abandonadas.

A recepção é definida por Congar como "o processo pelo qual um corpo torna sua uma verdade, uma determinação que não se deu a si mesmo, reconhecendo que a medida promulgada é uma regra que convém à sua vida. A recepção é mais do que obediência. É uma contribuição própria de consentimento, eventualmente de juízo, na qual se expressa a vida de um corpo que exerce suas capacidades espirituais.[15]

Nossa comparação entre Medellin e o Vaticano II irá se concentrar principalmente na dimensão da recepção do Concílio pela assembléia de Medellin, nas seus textos finais que compreendem a mensagem aos povos da América Latina, a introdução às conclusões e as conclusões propriamente ditas, vazadas em dezesseis documentos, agrupados em três blocos: Promoção Humana, Evangelização e Crescimento na Fé e Igreja Visível e suas Estruturas.

 

III.1 - UMA RECEPÇÃO FIEL

Medellin caracteriza-se pela radicalidade com que determinadas orientações de fundo do Vaticano II foram plenamente assumidas.

A primeira delas é a "pastoralidade", que o Papa João XXIII quis imprimir ao conjunto da obra conciliar. Nem todos os documentos conciliares alcançaram assimilar, plenamente, este horizonte que se encontra melhor expresso naquela que seria chamada de Constituição Pastoral da Igreja no Mundo de Hoje, a "Gaudium et Spes". Em Medellin, são todos os seus 16 documentos que devem ser lidos à luz da pastoralidade. Eles arrancam da preocupação pastoral dos bispos frente à realidade pungente do continente e terminam sempre com orientações, de caráter prático, para os trabalhos pastorais. Vários deles trazem impresso, no seu próprio título, a dimensão da pastoralidade: Pastoral Popular, Pastoral de Elites, Pastoral de Conjunto. Mais do que isto, esta dimensão constitui, explicitamente, a terceira parte de todos os dezesseis documentos, onde vem consignada sob diferentes títulos: Projeções de Pastoral Social (Med. 1, Justiça); Conclusões Pastorais (Med. 2, Paz); Recomendações para uma Pastoral Familiar (Med. 3, Família e Demografia); Orientações Pastorais (Med. 4, Educação); Recomendações Pastorais (Med. 5, Juventude) e, assim por diante.

Outra dimensão conciliar, plenamente vivida por Medellin foi a colegialidade episcopal, não enquanto debate teórico ou aprimoramento de sua definição, mas como exercício prático inovador. Foi todo um continente que buscou, colegialmente, a melhor maneira de aplicar o espírito e as determinações da Concílio à vida de suas igrejas particulares.

Sob um outro ângulo e comparando a II Conferência à instituição - o Sínodo dos Bispos - que, no pós Concílio, buscou concretizar o exercício da colegialidade episcopal, vemos que Medellin representou, num grau singular e original, a aplicação do princípio da colegialidade episcopal.

Durante o Concílio, uma grande corrente do episcopado sonhou em desdobrar a recém explicitada e aprovada doutrina da colegialidade, em algum tipo de organismo que associasse os bispos ao Papa, no governo geral da igreja. Imaginou-se uma espécie de senado permanente, constituído por bispos dos diferentes continentes que, junto com o Papa, tomasse, sobre si, a responsabilidade da condução da vida da igreja.

De fato, o instituto aprovado foi o do Sínodo dos Bispos, com a função, porém, de ser apenas um órgão de consulta do Romano Pontífice, sem poder de auto-convocação, sem capacidade de propor sua própria agenda e sem funções deliberativas.

As conferências gerais do Episcopado Latino-americano, iniciadas com Medellin (1968) e continuadas em Puebla (1970) e Santo Domingo (1992), ainda que de maneira penosa e sofrendo crescentes restrições por parte de Roma, conquistaram um espaço de realização da colegialidade episcopal, em profunda comunhão com a Sé de Pedro, mas sem abdicar do pleno exercício de sua própria responsabilidade de pastores desta porção do povo de Deus, deliberando e propondo às suas igrejas um magistério próprio e investido de autoridade.

Esta forma de exercício da colegialidade ganhou um selo excepcional, ao acolher Paulo VI, o pedido expresso pelos bispos de levar imediatamente para suas igrejas as conclusões que acabavam de ser aprovadas, em Medellin.

A solicitação dos bispos, transmitida-lhe por telefone pelo Cardeal Antonio Samoré, presidente da CAL e um dos três presidentes da II Conferência, recebeu resposta positiva. Paulo VI permitindo que fossem divulgadas, imediatamente, as conclusões de Medellin, antes mesmo que passassem pelo crivo dos dicastérios romanos e recebessem sua aprovação formal, inaugurou uma relação entre colegialidade e primado petrino, marcada pela mútua confiança e recíproca acolhida, na obediência apenas ao desejo de melhor servir ao povo de Deus. Essa decisão não deixou, evidentemente, de criar alguns problemas práticos, pois ao lado da versão oficial das conclusões de Medellin, aprovadas por Paulo VI, com pequenas correções, a 24 de outubro de 1968, continuaram circulando versões do texto, tal qual saiu de Medellin ao final da II Conferência, no dia 6 de setembro, sem nem mesmo incorporar as limaduras de estilo e gramática realizadas pelo Secretariado Geral do CELAM e sem as modificações introduzidas por Roma e que constam da edição oficial.[16]

Medellin constitui, assim, um modelo alternativo à maneira de se exercer a colegialidade episcopal consubstanciada nos Sínodos dos Bispos, reduzidos à condição de um órgão consultivo do Romano Pontífice. Medellin preservou, na sua inteireza, ao lado da voz papal, a voz dos bispos latino-americanos e caribenhos; ao lado da autoridade petrina e, em harmonia e comunhão com a mesma, a autoridade própria dos bispos; ao lado do magistério pontifício, o magistério próprio das igrejas locais.

Num outro sentido, inovou Medellin no exercício da colegialidade. Uma das intuições, que permitiu a revolução eclesiológica do Vaticano II foi a de ancorar a noção de Igreja na figura do Povo de Deus, lutando-se tenazmente para que este capítulo precedesse o da constituição hierárquica da Igreja, deixando claro que bispos, clero e o conjunto dos batizados formam parte do mesmo povo de Deus.

Em Medellin, pela mecânica de trabalho adotada, trabalharam lado a lado, nas 16 comissões e sub-comissões, bispos, peritos, sacerdotes, religiosos e religiosas, leigos e leigas, além dos observadores não católicos, participando todos ativamente da elaboração dos textos. Simbolicamente, a igreja toda estava ali implicada na busca dos caminhos para melhor servir ao povo latino-americano, no sentido de sua redenção e libertação, ainda que nas votações tomassem parte apenas os bispos e outra pequena fração da assembléia constituída pelos sacerdotes diocesanos ou religiosos. De todos os modos, o voto, em Medellin, não se restringiu apenas aos bispos.

O que ali aconteceu, aponta na direção de que todos os membros do povo de Deus tenham voz e voto nos assuntos pastorais, seja nos conselhos pastorais paroquiais, nos conselhos diocesanos de pastoral, seja na prática já consagrada das assembléias diocesanas para aprovação das diretrizes e prioridades pastorais de uma igreja particular. Esta noção alargada de colegialidade, implicando o conjunto do povo de Deus nas responsabilidades pela vida e missão da igreja esteve esboçada na mecânica de trabalho adotada em Medellin e, em parte, nas votações ali realizadas.

 

III.2 - UMA RECEPÇÃO CRIATIVA

Vaticano II não é recebido de modo servil pela assembléia de Medellin.

O Concílio não é tomado, nem como ponto de partida e nem mesmo como ponto de chegada, nos documentos de Medellin.

O ponto de partida é sempre a realidade do povo e dos países latino-americanos lida como sinais do tempo, onde a voz de Deus se faz ouvir e se torna interpelação premente que exige a resposta generosa da ação pastoral e social: "Não basta refletir, obter maior clareza e falar. É preciso agir. Esta não deixou de ser a hora da palavra, mas tornou-se, com dramática urgência, a hora da ação".[17] 

O Concílio não é tampouco o ponto de chegada, mas sim as pistas pastorais que nos convocam para agir.

Os documentos conciliares entram bem mais, junto com a Palavra de Deus, como um dos elementos de iluminação da realidade e critério para o discernimento evangélico de qual deva ser o nosso juízo sobre esta realidade e qual o nosso compromisso perante a mesma.

Processa-se, assim, uma releitura significativa dos textos conciliares que coloca em relevo dimensões que tiveram inclusive dificuldades em encontrar sua plena expressão no desenrolar-se do Concílio.

Valham alguns poucos exemplos desta recepção criativa e crítica.

Ao final da primeira sessão, em dezembro de 1962, sucederam-se na aula conciliar algumas intervenções notáveis, por parte de padres conciliares, que buscavam imprimir um novo rumo e método aos trabalhos conciliares, vertebrando em torno a alguns eixos estruturantes a massa heteróclita dos 72 esquemas elaborados pelas comissões conciliares preparatórias. Entre estas intervenções, destacam-se a do Cardeal de Malines-Bruxelles, Joseph Suenens, de 4 dezembro de 1962, para quem a matéria conciliar devia ser reestruturado em torno a dois grandes eixos, o da Igreja "ad-intra" e o da Igreja "ad extra"[18] ; a do então Cardeal de Milão, Giovanni Montini, intervindo no dia 5 de dezembro, apoiando o intervento de Suenens e propondo como foco do Concílio o tema da Igreja – o que é e o que faz -, chamada a colocar no centro de sua vida seu verdadeiro mistério, Jesus Cristo, do qual esta é apenas instrumento[19] e a do Cardeal de Bologna, Giacomo Lercaro, no dia 6 de dezembro, expressando seu apoio às propostas de Suenens e Montini, mas indicando que o horizonte maior da igreja deviam ser os pobres e a atenção pastoral às suas necessidades e anseios.[20] Prevaleceu a proposta Suenens, aglutinando-se assim os anteriores esquemas conciliares em torno à temática da Igreja em si, abordada pela Lumen Gentium e pelos outros documentos que a ela se ligam e em torno à temática da Igreja em relação ao mundo de hoje, às suas angústias e esperanças, desenvolvida pela Gaudium et Spes.

O tema da Igreja dos Pobres estava no coração de João XXIII que o propôs na alocução de 11 de setembro de 1962, um mês antes da abertura do Concílio: "Outro ponto luminoso. Diante dos países subdesenvolvidos, a Igreja apresenta-se tal como é e quer ser, a Igreja de todos e particularmente a Igreja dos pobres".[21] 

O cardeal Lercaro, na sua intervenção, retomou com força o propósito de João XXIII, declarando: "esta é a hora dos pobres, dos milhões de pobres que estão por toda a terra, esta é a hora do mistério da Igreja, mãe dos pobres, é a hora do mistério de Cristo sobretudo no pobre". Por conseguinte, "a mais profunda exigência do nosso tempo, incluindo nossa grande esperança de promover a unidade de todos os cristãos, não seria satisfeita, seria ao contrário frustrada, se o problema da evangelização dos pobres do nosso tempo, fosse tratado no Concílio, como um tema que se junta aos outros." Com efeito, "não se trata de um tema qualquer, mas num certo sentido do único tema de todo o Vaticano II".[22] 

O tema da pobreza foi insistentemente relançado durante o Concílio pelos bispos que se organizaram em torno a esta preocupação, durante o Concílio, como grupo de oração, de reflexão e de pressão. O grupo "Igreja dos Pobres", integrado por um bom número de bispos latino-americanos, em especial do Brasil, conseguiu escasso sucesso nos seus intentos de levar o Concílio a fazer desta dimensão o seu eixo estruturante. Sua influência espiritual e profética foi bem maior do que seu êxito prático em fazer passar suas preocupações para os textos conciliares, com exceção do magnífico número 8 da Lumen Gentium, no seu parágrafo consagrado ao Cristo pobre: "Mas assim como Cristo consumou a obra da redenção na pobreza e na perseguição, assim a Igreja é chamada a seguir o mesmo caminho a fim de comunicar aos homens os frutos da salvação. Cristo Jesus, "como subsistisse na condição de Deus, despojou-se a si mesmo, tomando a condição de servo"(Filip 2, 6) e por nossa causa "fez-se pobre embora fosse rico"(2 Cor 8, 9): da mesma maneira a Igreja embora necessite dos bens humanos para executar sua missão, não foi instituída para buscar a glória terrestre, mas para proclamar, também pelo seu próprio, exemplo, a humildade e abnegação. Cristo foi enviado pelo Pai para "evangelizar os pobres, sanar os contritos de coração"(Lc 4, 18), "procurar salvar o que tinha perecido"(Lc 19, 10): semelhantemente a Igreja cerca de amor todos os afligidos pela fraqueza humana, reconhece mesmo nos pobres e sofredores a imagem de seu Fundador pobre e sofredor. Faz o possível para mitigar-lhes a pobreza e neles procura servir a Cristo." (LG 8)

Em Medellin, ao contrário do Vaticano II, os bispos que fracassaram no seu intento de colocar os pobres no centro das preocupações da igreja, lograram plenamente o seu objetivo. Os demais temas eclesiológicos, por mais relevantes que fossem, são deixados de lado em favor deste único que se transforma no documento 14, "Pobreza da Igreja":

"O Episcopado Latino-americano não pode ficar indiferente perante as tremendas injustiças sociais existentes na América Latina que mantêm a maioria de nossos povos numa dolorosa pobreza e que, em muitíssimos casos, chega a ser miséria inumana.

Um surdo clamor brota de milhões de homens, pedindo a seus pastores uma libertação que não lhes advém de parte nenhuma." (Med 14, 1-2)

Como resposta a este clamor, propõem os bispos:

"Queremos que a Igreja da América Latina seja evangelizadora e solidária com os pobres, testemunha do valor dos bens do Reino e humilde servidora de todos os homens de nossos povos.

[…] A ordem específica do Senhor de evangelizar os pobres deve levar-nos a uma distribuição tal dos esforços e do pessoal apostólico que se dê preferência efetiva aos setores mais pobres, necessitados e segregados por um motivo ou outro, estimulando e acelerando as iniciativas e estudos que vêm se realizando neste sentido.

Os bispos queremos aproximar-nos cada vez mais com simplicidade e sincera fraternidade dos pobres, possibilitando-lhes um acesso acolhedor junto a nós". (Med. 14, 8-9)

Outro exemplo de recepção criativa pode ser encontrado no documento sobre a educação. O tema fora abordado na declaração conciliar "Gravissimum Educationis", recebendo um tratamento bastante tradicional e calcado em anteriores documentos pontifícios.[23]

Medellin faz apenas duas brevíssimas referências ao documento conciliar no momento de recordar aos pais de família, como "primeiros e principais educadores" (GE 3, Med. 4, 12) e para sinalizar que a necessidade de colaboração entre os sistemas oficiais e particulares de ensino (GE 12, Med. 4, 29). Dedica-se a um exame detalhado do quadro da educação ou melhor da falta de educação nas sociedades latino-americanos e a uma análise crítica do papel das escolas católicas, colégios e universidades:

" […] o panorama geral da educação apresenta-se à nossa vista com características, ao mesmo tempo de drama e de desafio. Dizendo isto, anima-nos, não um espírito pessimista, mas um desejo de superação". (Med. 4, 2)

"Nossa reflexão sobre este panorama conduz-nos propor uma visão da educação mais conforme com o desenvolvimento integral que propugnamos para o nosso continente; chamá-la-íamos ‘educação libertadora’, isto é, que transforma o educando em sujeito de seu próprio desenvolvimento. A educação é efetivamente o meio-chave para libertar os povos de toda escravidão e fazê-los subir ‘de condições de vida menos humanas a condições mais humanas’ (PP 20), levando em conta que o homem é o responsável e ‘o artífice principal de seu êxito ou de seu fracasso’ (PP 15)". (Med. 3, 8)

O documento procura ancorar teológica e pascalmente, a proposta de uma educação libertadora: "Como toda libertação é já uma antecipação da plena redenção de Cristo, a Igreja da América Latina sente-se particularmente solidária com todo esforço educativo que venha libertar nossos povos (Is. 58, 6; 61, 1). Cristo pascal, "imagem do Deus invisível (Col 1, 15), é a meta que o desígnio de Deus estabeleceu ao desenvolvimento do homem, para que "alcancemos todos a medida da idade madura da plenitude de Cristo". (Ef. 4, 13). (Med. 4, 9)

O documento de Medellin acolhe assim as grandes linhas de uma educação libertadora, nascida das experiências de educação popular desenvolvidas nas campanhas de educação de base, a partir dos métodos inovadores da pedagogia do oprimido do educador brasileiro Paulo Freire, ao mesmo tempo que a fundamenta teologicamente no mistério pascal do Cristo. .

 

III.3 - UMA RECEPÇÃO SELETIVA

Uma comparação sumária entre os dezesseis documentos do Concílio Vaticano II (quatro constituições, nove decretos e três declarações) e os dezesseis de Medellin, repartidos em três blocos: Promoção Humana, com cinco documentos [Justiça, Paz, Família e Demografia, Educação, Juventude]; Evangelização e Crescimento na Fé, com quatro [Pastoral Popular, Pastoral de Elites, Catequese, Liturgia] e Igreja Visível e suas Estruturas, com sete [Movimento de Leigos, Sacerdotes, Religiosos, Formação do Clero, Pobreza na Igreja, Pastoral de Conjunto, Meios de Comunicação Social], mostra uma diferente organização da matéria tratada. Olhando mais de perto, pode-se ver que há documentos cuja temática é coincidente, outros que são exclusivos do Concílio, enquanto outros são próprios apenas de Medellin.

Coincidem na temática da Educação, a declaração Gravissimum Educationis do Vaticano II e o documento 4 de Medellin, Educação; na da Liturgia, a Constituição Sacrosanctum Concilium e o documento 9, Liturgia; na dos leigos e seu apostolado, o decreto Apostolicam Actuositatem e o documento 10, Movimentos de Leigos; na dos sacerdotes, o decreto Presbyterorum Ordinis e o documento 11, Sacerdotes; na da formação sacerdotal, o decreto Optatam Totius e o documento 13, Formação do Clero; na da Vida Religiosa, o decreto Perfectae Caritatis e o documento 12, Religiosos; na dos Meios de Comunicação Social, o decreto Inter Mirifica e o documento 16. Coincidem, pois, na temática geral, sete dos dezesseis do documentos.

Não se encontra, em Medellin, um documento correlato à constituição dogmática Dei Verbum sobre a divina revelação. Conquanto Medellin incorpore, em muitos dos seus documentos, uma busca consciente de fundamentação na Palavra de Deus, esta é uma de lacunas sensíveis, tanto mais que foi a Bíblia a alimentar a caminhada das comunidades eclesiais de base, propugnadas por Medellin e a fornecer a referência maior para suas celebrações, espiritualidade e compromisso.

Não há também um correspondente para o decreto Christus Dominus que trata do ofício pastoral dos bispos, nem para o decreto Ad Gentes, sobre a atividade missionária da Igreja ou ainda para o decreto Unitatis Redintegratio, sobre os princípios católicos acerca do ecumenismo.

Isto não nos deve levar à conclusão apressada de que a ausência de um documento correspondente signifique que seu espírito e mesmo orientações não estejam de algum modo contemplados em Medellin.

Sirva de exemplo o caso do decreto Unitatis Redintegratio (UR) sobre o ecumenismo. De todas as Conferências Gerais do Episcopado Latino-americano, Rio, Puebla e Santo Domingo, foi em Medellin que os cristãos não católicos compareceram em maior número: onze, enquanto apenas cinco estiveram em Puebla, só três em Santo Domingo e nenhum no Rio de Janeiro (RJ). O clima da conferência desenrolou-se numa atmosfera extremamente positiva, culminando numa grande concelebração eucarística, sinal do encontro entre as pessoas ao longo de duas semanas de intenso trabalho conjunto e da comunhão de alma e objetivos. A participação na eucaristia conclusiva foi expressamente solicitada pelos observadores não católicos, em carta dirigida à Presidência. Era a expressão da comunhão de vida e propósitos alcançada naqueles dias. Evidentemente, a intercomunhão praticada com o assentimento do legado pontifício e presidente da Conferência, Cardeal Samoré, do arcebispo local, Mons. Tulio Botero Salazar e do conjunto da assembléia constituída principalmente por bispos, provocou desconcerto em Roma e noutros ambientes, tanto mais que pouco antes fora desautorizado publicamente. Durante os acontecimentos de maio de 1968, a intercomunhão fora praticada em Paris: "[…] padres e leigos católicos uniram-se numa celebração litúrgica que se terminou com intercomunhão. O gesto foi censurado pelo arcebispo de Paris em nota oficial, recebido com reservas pela Federação Protestante Francesa e vivamente atacado pelo "Osservatore Romano ".[24]  

Outros indícios da preocupação ecumênica em Medellin podem ser rastreados nos seus textos: a Mensagem aos Povos da América Latina estava endereçada a todos os homens de boa vontade, mas dizia: "De maneira especial nos dirigimos às Igrejas e comunidades cristãs que participam conosco de uma mesma fé em Cristo Jesus. Durante esta Conferência, irmãos nossos dessas confissões cristãs estiveram participando de nossos trabalhos e esperanças. Junto com eles seremos testemunhas deste espírito de colaboração".[25]   No documento de Catequese, recomenda-se: "Deve-se ressaltar o aspecto totalmente positivo do ensino catequético com seu conteúdo de amor. Assim se fomentará um são ecumenismo, evitando toda polêmica, e criar-se-á um ambiente propício à justiça e à paz". (Med. 9, 11); no de Liturgia agrega-se: "Promovam-se as celebrações ecumênicas da Palavra de acordo com o Decreto sobre o Ecumenismo n. 8 e segundo as normas do Diretório nn. 33-35". (Med. 9, 14). Em todos os documentos relativos à Promoção Humana, a preocupação é a mesma: no de Paz, conclama-se, num apelo dirigido também aos não-cristãos, que sejam convidadas "as diversas confissões e comunidades cristãs e não-cristãs a colaborarem nesta fundamental tarefa destes tempos". (Med. 2, 26)

Assim, na maior parte dos documentos há uma explícita convocação para o trabalho de cooperação ecumênica, embora não haja, em nenhum dos textos de Medellin, uma única citação do decreto UR do Vaticano II.

Quanto à Lumen Gentium, não há um documento correspondente em Medellin, a não ser o da Pobreza na Igreja (Med. 14) que condensa, nesta questão, todo o debate eclesiológico. O tema eclesiológico é retomado no documento de Pastoral de Conjunto, onde os números de 10 a 12 definem a proposta fecunda de uma igreja de pobres, congregada em pequenas comunidades cristãs de base: "Assim, a comunidade cristã de base é o primeiro e fundamental núcleo eclesial, que deve, em seu próprio nível, responsabilizar-se pela riqueza e expansão da fé, como também pelo culto que é a sua expressão. É ela, portanto a célula inicial de estruturação eclesial e foco de evangelização e atualmente fator primordial de promoção humana e desenvolvimento". (Med. 15, 10)

As comunidades eclesiais de base são já um desenvolvimento eclesial próprio das igrejas da América Latina e que ultrapassa, visivelmente, os limites formais da eclesiologia desenvolvida na Lumen Gentium ou melhor dizendo, dão um rosto concreto à definição da Igreja, como Povo de Deus, todo ele ministerial, por obra de sua incorporação batismal ao Cristo, sacerdote, profeta e rei. .

Gaudium et Spes é revisitada de maneira seletiva, contemplando alguns daqueles problemas mais urgentes que constituem a segunda parte da Constituição Pastoral: a dignidade do matrimônio e da família encontra eco no documento Família e Demografia (Med. 3); a vida econômica e social, no documento de Justiça (Med. 1), as questões de política, paz e promoção humana, no de Paz (Med. 2).

Neste, encontra-se também uma formulação nova para o espinhoso problema da violência, tratado por Medellin, como dramático dilema: "Se o cristão crê na fecundidade da paz para chegar à justiça, crê também que justiça é condição imprescindível da paz. Não deixa de ver que a América Latina encontra-se, em muitas partes, numa situação de injustiça que pode chamar-se de violência institucionalizada". (Med. 2, 16). Introduz-se na análise da violência e das suas causas, o conceito de violência estrutural e institucionalizada, violência primeira que provoca muitas vezes a resistência desesperada dos setores oprimidos da sociedade. Medellin coloca entre os sinais dos tempos a crescente tomada de consciência destes setores. (Med. 2, 7) Paulo VI fizera no seu discurso de abertura à II Conferência uma veemente condenação "dos sistemas e estruturas que encobrem e favorecem graves e opressoras desigualdades entre as classes e cidadãos de um mesmo país", mas também dos que escolheram o caminho da "rebelião sistemática, do derramamento de sangue, da anarquia".[26]  O Papa tinha como pano de fundo o confronto cada vez maior entre a população e as ditaduras militares e os sistemas políticos oligárquicos do continente, ao mesmo tempo que o crescente fenômeno das guerrilhas rurais e urbanas que, na Colômbia, havia arrastado para os seus quadros um brilhante sacerdote e cientista social, o Pe. Camilo Torres Restrepo, morto em combate a 15 de fevereiro de 1966, com enorme repercussão no país e em todo o continente. Camilo não era um caso isolado e encontrava simpatias em vários movimentos sacerdotais ou laicais, como SAL (Sacerdotes para América Latina) e Golconda na Colômbia, Sacerdotes do Terceiro Mundo na Argentina e, mais tarde, Cristãos para o Socialismo, no Chile e em outros países.[27]   Ao receber e ler as conclusões de Medellin, Paulo VI disse em audiência a Mons. Eduardo Pironio, secretário geral do CELAM, que estava de acordo com a colocação do documento sobre a violência institucionalizada. Sugeria que se acrescentasse algum exemplo, para esclarecer do que se tratava. De fato, foi agregado ao documento oficial um parágrafo tirado da encíclica Populorum Progressio, onde se detalhavam exemplos de violência estrutural, acatando-se, assim, a sugestão de Paulo VI.[28] 

Escrutando mais a fundo, pode-se descobrir, pelas citações tomadas dos documentos conciliares, quais são aqueles que exerceram uma influência maior, quais os que são escassamente contemplados e quais os que, finalmente, não são sequer mencionados.

Damos abaixo um quadro sintético das citações conciliares:

 

TABELA DAS CITAÇÕES CONCILIARES NOS DOCUMENTOS DE MEDELLIN[29]

 

DOC.

1

2

3

4

5

6

7

8

9

10

11

12

13

14

15

16

Total

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SC

 

 

 

 

 

 

 

 

29

 

 

 

01

 

 

 

30

LG

 

 

02

 

03

 

 

 

07

04

03

06

02

 

04

 

31

DV

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

01

 

 

 

01

GS

07

03

10

01

01

02

 

 

06

03

01

 

 

05

02

01

42

IM

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

01

 

 

07

08

UR

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

OE

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CD

 

 

 

 

 

 

 

 

01

 

 

02

01

 

09

 

13

PC

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

01

07

03

 

 

 

11

OT

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

01

17

 

 

 

18

AA

 

 

04

 

 

 

 

 

 

01

02

 

 

 

02

 

09

AG

 

 

 

 

02

 

 

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