O mistério na vida... Circulando, fluindo... nos elementos, nas estações. Palavra que brota, agir que floresce... A luz pascal que incendeia a festa da existência. A soma dos "ires-e-vires", de homens e mulheres que celebram, se encantam, e se enredam, no cuidado com o mundo, na busca do Reino.

A PALAVRA DE DEUS NO DIA DO SENHOR

9 de abril de 2020

Ceia do Senhor - Quinta -feira Santa e Paixão do Senhor

Imprimir Voltar

1 -Aprofundando os textos bíblicos:     

Quinta-Feira Santa / Ano A / 09/04/2020

PÁSCOA DA CEIA DO SENHOR

 

1-Aprofundando os textos bíblicos:

João 13,1-15 – Êxodo 12,1-8.11-14 – Salmo 116(115) – 1 Coríntios 11, 23-26:

Com o lava-pés, o evangelho de João apresenta um novo sentido de eucaristia, diferente dos sinóticos e Paulo, que narram a instituição. Na ceia pascal, Jesus realiza ações que deverão ser normas para a comunidade: despoja-se do manto e pega o avental. Quem fazia o serviço de lavar as mãos eram subalternos e mulheres. Jesus vai além e lava os pés. É o Senhor que se torna servo, para dar testemunho do amor que é serviço. O maior gesto eucarístico que Jesus nos deixou como exemplo e missão é comprometer-se com uma nova história, que se constrói a partir da entrega total da vida. A páscoa marca o início de vida nova, um novo tempo de libertação, vitória sobre o poder opressor. A segunda leitura é o primeiro texto do NT que trata da eucaristia. É a “ação de graças”, correspondente à berakah judaica traduzida pela palavra grega eu-charis-tia; charis significa graça, dom, beleza. Eucaristia significa boa graça, belo dom, bondade manifestada: agradecimento pelo dom recebido - ceia do Senhor, também chamada de fração do pão.

2. Atualizando:
O mistério que celebramos:  Nesta noite, iniciando o tríduo pascal, o Senhor nos convida, expressando ardente desejo de celebrar conosco a páscoa, memorial da libertação. Recordamos os gestos de amor que Deus realizou, tirando nossos pais da terra da escravidão. Participamos de sua ceia, comendo de seu corpo doado e de seu sangue derramado, entregues por nós. Permitimos que Ele nos lave os pés, acolhendo dele o mandamento do amor, tornando-nos testemunhas de tudo o que ele nos entregou e deixou. É a Páscoa da Ceia!” Hoje, também nos unimos com o povo de Israel que celebra “pessach”, a festa da Páscoa judaica.  A eucaristia celebrada por Jesus com discípulas e discípulos, é anúncio de que a salvação e a libertação só são possíveis no amor. Viver a eucaristia é ser capaz de trocar o poder pelo avental; o “mistério da fé” é entregar a vida totalmente, como Jesus fez, o que nada tem a ver com triunfalismo. Somos pessoas eucarísticas conforme o sentido do Lava-pés?

3-A palavra de Deus na celebração: Damos graças ao Pai pelos gestos de amor, tirando-nos da escravidão. Aceitamos que o Senhor nos lave os pés e acolhemos o novo mandamento, dispondo-nos a doar a vida pelos irmãos. Participamos da sua ceia, comendo seu corpo doado e bebendo de seu sangue derramado, selo da nova aliança.

 

4-Dicas e sugestões:

  1. Preparar o ambiente da celebração, como uma verdadeira e festiva refeição: flores, velas, cor branca nas toalhas e vestes, pão (ázimo) e vinho abundante.
  2. Para expressar mais claramente o sentido de refeição e ceia, além do sinal do vinho e do pão, a comunidade poderá trazer algum alimento para partilhar, especialmente com as crianças e com os pobres. Onde for possível, toda a comunidade se reúne ao redor da mesa, arrumada no centro da igreja.
  3. Preparar cuidadosamente o lava-pés, que por algum tempo já foi considerado um sacramento pelas comunidades cristãs. Mesmo ligando-o com o tema da Campanha da Fraternidade, como acontece em algumas comunidades, é importante salientá-lo como sinal da doação de Jesus e o gesto profético que anuncia sua morte.
  4. Neste dia do “novo mandamento”, é importante acolher bem as pessoas que chegam para a celebração.
  5. Iniciar a celebração com um toque de flauta ou outro instrumento musical seguido do canto de um  refrão orante, que expresse o sentido desta festa, como:”Onde reina o amor, fraterno amor, onde reina o amor, Deus aí está!”. Uma voz entoa, seguida pela assembléia que o repete várias vezes, diminuindo o volume da voz.
  6. Para a abertura, o Hinário Litúrgico 2, p. 161, sugere o canto: “ Nós devemos gloriar-nos”... Quem preside e toda a equipe de celebração entra e  beija calma e solenemente a mesa da ceia (altar). Quem anima dá o sentido da celebração e acolhe fraternalmente todos. Sendo o início do Tríduo pascal, todos se saúdam, desejando-se mutuamente  “ Feliz Páscoa!”.
  7. Nesta noite da unidade, onde for conveniente, após este acolhimento, a comunidade faz a memória dos vários grupos e igrejas, com os quais quer estar em comunhão. Ao lembrar cada grupo, uma pessoa acende uma vela de um candelabro preparado para isso e colocado em lugar de destaque. Assim retoma-se o primeiro rito da páscoa judaica, o acendimento das luzes da festa, a “menorah”, (candelabro de sete braços), sempre feito pelas mulheres. Segue-se imediatamente o canto do glória e a oração da coleta.
  8. Particularmente neste dia, abrir o rito da Palavra com a recordação da vida, ou seja, fatos ou ações concretas, em que durante a quaresma a comunidade vivenciou sua páscoa.
  9. A primeira leitura pode ser feita como na ceia judaica. Uma criança pergunta: Por que esta noite é diferente das outras? Um adulto responde recitando o texto, se possível, de cor. Depois da leitura, onde for oportuno, podem ser passadas vasilhas com ervas amargas (chicória, almeirão, mostarda), como na ceia pascal, lembrando o sofrimento do povo de Israel no Egito. “Desta forma, estamos reverenciando o povo do qual veio Jesus e, ao mesmo tempo, entrando em comunhão com ele, que também celebra neste dia a festa da Páscoa”.
  10. O Hinário Litúrgico 2, p. 47 oferece uma versão cantada para o salmo responsorial – Sl 116(115) e na p. 52, traz a partitura da aclamação ao evangelho, indicada para esta celebração: “Eu vos dou um novo mandamento”.
  11. De preferência, encenar o evangelho integrando o lava-pés ao longo da narração. Uma pessoa faz o papel de Pedro, no diálogo com Jesus. Quem dirige lava, enxuga e beija o pé de cada pessoa, enquanto a comunidade entoa um hino apropriado, retomando o texto, como: “ Jesus, erguendo-se da Ceia, jarro e bacia tomou ...” Onde for possível, o gesto de Jesus seja vivido pelas pessoas que, na comunidade, exercem algum ministério ou serviço.
  12. No momento da apresentação das oferendas, um grupo de pessoas prepara mesa da ceia diante da comunidade. Além de pães ázimos e de jarra de vinho, é bom que tenha algum alimento (pão, bolo, suco de uva...) que possa ser partilhado com todos no final da celebração.

                                                M. Lourdes Zavarez e M. Carmo de Oliveira

SEXTA-FEIRA SANTA: PÁSCOA DA PAIXÃO DO SENHOR JESUS

 

1- Aprofundando os textos bíblicos: João 18,1-19,42 – Isaias 52,13-53,12 – Salmo 31(30) – Hebreus 4,14-16;5,7-9: A narrativa da paixão aparece nos quatro evangelhos. É uma narrativa tecida de frases isoladas, num relato contínuo quase contemporâneo à 1ª pregação. É provável que a primeira proclamação do Evangelho consistisse apenas na narração da paixão, morte e ressurreição de Jesus. A paixão é proclamada, não simplesmente narrada; é o evento central da história da salvação, o clímax e cumprimento da ação salvífica e julgadora de Deus; ela faz compreender a Lei e os Profetas, por isso há várias referências ao AT. O próprio Jesus apresenta a sua paixão como meta de seu ensino e sua vida. Em João, a paixão é o momento da glorificação do Filho de Deus. Na prisão de Jesus, o quarto evangelho coloca Judas acompanhado por um destacamento da guarda romana, mas omite o beijo da traição; mostra a liberdade e independência de Jesus, que interroga e responde aos que vieram prendê-lo. A expressão “Sou Eu” é uma alusão à grande revelação do Sinai: “Eu sou quem serei” (Ex 3,14-16). Jesus se revela nesta resposta e se torna temível aos que representam o poder diabólico. Jesus recebe bofetada não por zombaria e gozação ao seu poder profético, como nos outros evangelhos, mas devido a sua resposta corajosa e verdadeira ao Sumo Sacerdote. O texto de Isaías e o Salmo trazem um retrato do próprio Jesus, humilde e mísero servo, vítima dos poderosos. Abandonado, entrega-se ao Pai, colocando nele toda sua confiança. Deus fará com que Ele veja a luz, triunfará e resgatará a humanidade.

2-Atualizando: Hoje vamos nos unir a toda pessoa que vive na servidão, paixão e morte; rezar em comunhão com tantos excluídos da sociedade, perseguidos  por causa da justiça, marcados para morrer.

3- A palavra de Deus na celebração: Unimos nossos passos à caminhada da paixão do Senhor até sua morte na cruz. Contemplando e adorando o Crucificado, elevamos nossa oração por toda a humanidade resgatada pelo seu sangue redentor. Comungando de seu corpo, passamos do pecado para a vida que jorra da cruz e recebemos força para, no dia-a-dia, vencer a morte e viver a alegria da ressurreição.

4- Dicas e sugestões: (vermelho) :

  1. O clima de profundo silêncio e o ambiente despojado expressam a dor e o luto da comunidade: o altar fica sem toalhas, sem flores e sem candelabros; a cor das vestes é vermelha, sinal do martírio, do sangue derramado na cruz. Onde for possível, colocar no ambiente da celebração fotos os cartazes de nossos mártires da América Latina. Com Jesus, eles entregaram a vida pela VIDA.
  2. Seguindo uma antiga tradição, não se celebra hoje a Eucaristia. Comungam-se as hóstias consagradas na Quinta-feira Santa.
  3. A celebração é organizada em quatro momentos: liturgia da palavra, oração universal, adoração da cruz e comunhão. Considerando mais lógica a seqüência, algumas comunidades, fazem primeiro a entrada solene da cruz e diante dela erguida no centro da Igreja, é feita a oração universal.
  4. A celebração começa com a assembléia de joelhos ou mesmo prostrada, e em profundo silêncio. Quem preside se prostra no chão, em sinal de humilhação e identificação com Cristo. Um refrão meditativo pode acompanhar este momento: “ Deus santo, Deus forte, Deus imortal, tende piedade de nós”. Ou “ Vidas pela Vida/ vidas pelo Reino(bis). Todas as nossas vidas/  e as suas vidas /na vida d´Ele: o Mártir, Jesus.” Depois todos se levantam para a oração da coleta.
  5. Segue-se a proclamação das leituras.
    1. Cuidar para que, sobretudo a 1ª leitura seja proclamada, respeitando seu estilo poético. Há uma bonita versão popular do Canto do Servo Sofredor, feita pela Ir. Agostinha Vieira de Melo, OSB que pode ser cantada com a melodia de “Funeral de um lavrador” da peça “Morte e Vida Severina”. Canto do Servo Sofredor

em forma de poesia popular, letra de Irmã Agostinha Vieira de Melo, OSB, com a melodia de “Funeral de um Lavrador”, da peça “Morte e Vida Severina”.

 

1 -  Vou contar uma história.

É do Servo Sofredor.

Está na Bíblia, está na vida.

É de quem sabe o que é dor.

 

2-O profeta Isaías

Foi quem primeiro contou.

Mas o pobre deste mundo

Vida afora completou.

 

3. A cantiga do profeta

nos aponta e nos conduz.

Esse Servo de quem fala

            É Nosso Senhor Jesus.

 

4. Quem já viu o que é seca

Já viu roçado queimado,

Pois o Servo era um toco

Pelo sol esturricado.

            5. Não havia formosura

no seu rosto maltratado,

tinha a cara tão sofrida

de quem foi bem torturado.

6. Dava até nojo de olhar.

Era um lixo bem pisado,

Era o Homem das Dores,

Na dor experimentado.

            7. Acredite, meu amigo,

Esse Servo humilhado

Assumiu nossas fraquezas,

Carregou fardo pesado.

8. Ferido de humilhação

Era desconsiderado.

Zombavam: “Isso é castigo,

Foi por Deus abandonado!”

 

9. O peso de dor tão grande

Era um facão bem fincado.

Por nossos pecados todos

Ele estava traspassado.

10. Mas, irmão, escute agora

O que vai ser relatado.

O sofrer desse oprimido

Cura o homem esmagado.

11. Antes dele a gente era

Um rebanho desgarrado.

Cada qual andava tonto

Sem rumo, desgovernado.

12. A ingratidão dos homens,

O montão do que é errado,

Pois tomou tudo para ele

Como se fosse o culpado.

13. Comparado com a gado,

Pra matança foi levado,

A bezerro parecia

Quando o couro é esfolado.

14. Apelaram pra calúnia,

O seu caso foi falado

Por um falso julgamento

À morte foi condenado.

15. Ninguém levantou a voz

Em defesa do acusado.

Deu a vida por seu povo,

Foi assim assassinado.

16. Teve enterro de bandido,

Malfeitor considerado,

 

Ele que só fez o bem,

Verdadeiro injustiçado.

 

17. Esse sofredor bendito

Na paixão foi bem provado.

O amor que tinha ao povo

Foi o seu santo recado.

 

18. Esse recado tão forte

Pelo profeta contado

É hoje na nossa vida

Um fato consumado.

 

19. Outro nome desse Servo

É Cordeiro Imaculado.

Veio nos trazer a vida,

Quer seu povo libertado.

 

20. Agora, irmão, procura

Enxergar modificado

Quem conta pouco na vida

Em primeiro é colocado.

 

21. Dessa conta diferente

Foi Jesus encarregado.

Ele revirou a lista:

Pequeno vale um bocado.

 

22. E o povo tão sofrido

No Evangelho é confirmado.

Os pequeninos do Reino

Povo de Deus é chamado.

 

23. A comparação tão linda

Do banquete preparado

É dos coxos, é dos cegos,

De quem sofre é o ajantarado.

 

24. Quando os fracos se ajuntam

Um clamor é proclamado:

“O sangue desse Cordeiro

Não foi em vão derramado!”

 

25. Toda a espécie de miséria  

De que o povo é carregado.

Terra nova anuncia

UM POVO RESSUSCITADO!

 

(in. MESTERS, C.  A missão do povo que sofre, Vozes, 1981, pp 175-17

 

 

Vejam no Dia do Senhor, Ciclo Pascal, ABC, p.190-206.

                                              

Lourdes Zavarez e M. Carmo de Oliveira

 

 

 

 

 

 

> 2 - Atualizando:     Quinta-feira Santa, início do Tríduo Pascal e Sexta-feira Santa, Paixão do Senhor.

> 3 - A palavra de Deus na celebração:    

> 4 - Dicas e Sugestões:   

 

M. do Carmo de Oliveira e M. Lourdes Zavarez