O mistério na vida... Circulando, fluindo... nos elementos, nas estações. Palavra que brota, agir que floresce... A luz pascal que incendeia a festa da existência. A soma dos "ires-e-vires", de homens e mulheres que celebram, se encantam, e se enredam, no cuidado com o mundo, na busca do Reino.

A PALAVRA DE DEUS NO DIA DO SENHOR

28 de janeiro de 2018

Quarto Domingo do Tempo Comum - Ano B

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1 -Aprofundando os textos bíblicos:     

4º. Domingo do tempo comum – Ano B

Leituras: Dt 18, 15-20; Salmo 94(95); 1 Cor 7,32-35; Marcos 1, 21-28

O “poder” de Jesus

Uma das características do antigo judaísmo é seu caráter profético, o fato de ser orientado por personagens carismáticas, considerados porta-vozes de Deus.
Nos três séculos antes do exílio babilônico, a figura do profeta ganhou sua imagem “clássica”. Com a reforma religiosa de Josias (620 a.C.), surge o livro do Deuteronômio, recapitulação da Lei de Moisés. Comporta uma espécie de definição do que deve ser um profeta (nem todos eram assim!): alguém como Moisés, alguém que escute a palavra de Deus, alguém a quem Deus coloque suas palavras na boca para transmiti-las, alguém que não fale em nome de Deus o que este não lhe tiver inspirado, nem fale em nome de outros deuses; alguém cujas palavras sejam confirmadas pelos fatos (Dt 18,15-22) (1ª leitura).
Pela instituição do profetismo, o povo de Israel se distingue das nações pagãs, que praticam todo tipo de adivinhação e superstição (18,14). Mas pouco depois do exílio, a instituição entra em declínio. A partir do século IV a.C., Israel não tem mais profetas. Aí surge a saudade. O texto de Dt 18,15.18, que fala genericamente do “profeta como Moisés” – originalmente indicando a instituição profética -, é agora interpretado no sentido individual, como apontando uma figura do tempo messiânico: o Messias-profeta.
Ora, a figura do “profeta como Moisés”, que a 1ª leitura da liturgia de hoje evoca, é apenas um “aperitivo” daquilo que o evangelho (Mc 1,21-28) deixa entrever. Apresenta Jesus como alguém que ensina com autoridade, portanto, não como os escribas! Essa “autoridade” evoca o poder profético de ensinar no nome de Deus e fazer sinais que confirmem a palavra. Porém, o termo grego (exousia) não é costumeiro no judaísmo helenístico para falar do poder profético, e sim, do poder escatológico do Filho de Homem e de Deus, no livro de Daniel! O episódio de Mc 1,21-28 (evangelho) dá a entender que o povo teve, diante de Jesus, a impressão de ver um profeta, o que é confirmado pelas opiniões populares citadas em Mc 6,15 e 8,28.
Mas a constatação da presença da “autoridade” esconde algo que o povo não consegue entender: “Que é isso?” (1,27). Ao percorrermos o evangelho de Mc, descobriremos que a identidade que Jesus atribui a si mesmo é a do Filho do Homem, o enviado escatológico de Deus, prefigurado em Dn 7. A este pertence a exousia (Dn 7,14), a “autoridade”. Quem parece suspeitar a identidade de Jesus é o demônio que é expulso naquela ocasião (Mc 1,24); ele conhece seu adversário.
No evangelho de Mc paira um mistério sobre a figura de Jesus. Aos demônios (1,25.34; 3,12), aos miraculados (1,44; 5,43; 7,34; 8,26), aos discípulos (8,30; 9,9), Jesus lhes proíbe publicar o exercício de sua “autoridade” que eles presenciaram. O mistério da identidade de Jesus só é desvendado na hora da morte, quando o centurião romano, representante do mundo inteiro, proclama: “Este homem era verdadeiramente o Filho de Deus” (15,39). Só na morte fica claro, sem ambigüidade, o modo e o sentido da obra messiânica de Cristo, segundo “os pensamentos de Deus” (cf. 8,3 1-33).
Portanto, se Jesus ensina com autoridade (e com essa misteriosa autoridade expulsa demônios, confirmando sua palavra profética), devemos enxergar no profeta de Nazaré (cf. 6, 4) o Filho do Homem, que vem com os plenos poderes de Deus.
A 2ª leitura é tomada, mais uma vez, das “questões práticas” da 1 Cor. Na linha da “reserva escatológica” (cf. dom. passado), Paulo explica as vantagens do celibato, ao menos, quando assumido com vistas à escatologia. Como o sentido da escatologia é que o Senhor nos encontre ocupado com sua causa (cf. 1° dom. Adv. B), é melhor adotar o estado de vida que deixe nosso espírito mais livre para pensar nisso. É um conselho de Paulo, não para truncar nossa liberdade, mas para a libertar mais ainda.
Claro, está falando do celibato assumido, não do celibato “levado de carona”, como é, muitas vezes, o do nosso clero; pois, quando não é assumido interiormente, desvia mais a mente da causa do Senhor do que as preocupações matrimoniais. Bem entendido, porém, o celibato, além da liberdade para Deus que proporciona aos que o assumem, é também um lembrete para os casados, ajudando-os, no meio de suas preocupações, a conservarem, também eles, a reserva escatológica, que os faz ver o caráter provisório de seu estado e problemas e, sobretudo, o sentido último que deve ser dado a tudo isso.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

 

 

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