O mistério na vida... Circulando, fluindo... nos elementos, nas estações. Palavra que brota, agir que floresce... A luz pascal que incendeia a festa da existência. A soma dos "ires-e-vires", de homens e mulheres que celebram, se encantam, e se enredam, no cuidado com o mundo, na busca do Reino.

DESTAQUES SEMANAIS

\" A SANTÍSSIMA TRINDADE É A MELHOR COMUNIDADE\"

16/06/2019

Comentário: SSMA. TRINDADE - Ano C

Enviado por José Ribeiro de Lima

Comentário bíblico para o domingo da SSMA. TRINDADE - Ano C

 "A SANTÍSSIMA TRINDADE É A MELHOR COMUNIDADE"

 

I. INTRODUÇÃO GERAL

 

  1. As comunidades cristãs se reúnem para celebrar a fé e o amor de Deus. A Santíssima Trindade é a melhor comunidade,  pois o clima que aí reina é de união, comunhão e  partilha

. Seu projeto é a liberdade e a vida para todas as suas criaturas. Os cristãos se reúnem para escutar e pôr-se à disposição desse projeto.

 2. Celebrar a Eucaristia é caminhar para a “verdade completa” do ser de Deus revelado em Jesus Cristo e continuamente atualizado pelo “Espírito da verdade”. Na celebração aprendemos, pela fé, a ficar firmes mesmo diante dos sofrimentos,“sabendo que o sofrimento produz resistência, e a resistência traz a aprovação de Deus”. A celebração eucarística, que inicia e se conclui em nome da Trindade, é a melhor escola onde aprendemos o que significa ser cristão nos tempos atuais.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

 

1ª leitura (Pr 8,22-31): A Sabedoria de Deus é seu projeto de vida

 

  1. Os nove primeiros capítulos de Provérbios servem de introdução a esse livro que reúne, nos caps. 10 a 29, a secular experiência de vida do povo de Deus. Os capítulos 1-9 foram escritos, na época pós-exílica, pela própria pessoa que ajuntou as diversas coleções de sentenças que formam o corpo do livro(caps. 10-29). Portanto, o texto que serve à liturgia de hoje é mais recente que o resto das sentenças contidas no livro dos Provérbios.
  2. A escola sapiencial remonta aos tempos de Salomão. Mas é na época pós-exílica que mostrará todo seu vigor, coletando e compilando experiências de vida dos antepassados, a fim de servirem de orientação para a geração presente.

 5. Na época pós-exílica o povo de Deus viu-se privado de algumas das mais importantes mediações político-religiosas:  não há mais rei, nem profeta. Como o povo irá orientar-se daqui para a frente? As cabeçadas e acertos dos que vieram antes se tornam pontos de referência para que as pessoas, hoje, tenham bom senso e discernimento, a fim de construir uma sociedade nova. O bom senso está acima das instituições político-religiosas e acima das estruturas sociais. Ele sozinho é capaz de orientar a vida no rumo certo, em sintonia com o projeto de Deus.

6. Para Israel, a verdadeira Sabedoria é a sensatez que nasce da experiência de vida. Com o passar do tempo, o povo de Deus do Antigo Testamento chegou a personificar essa experiência vital: ela é a criatura primogênita de Deus; é uma dama que as pessoas precisam cortejar, amar e conquistar, a fim de possuir a vida.

7.  A Sabedoria é, portanto, o próprio projeto de Deus que cria um mundo justo. Refletindo sobre as tragédias humanas e sobre a presença de Deus ao lado do seu povo, Israel chegou à seguinte conclusão: sábio é quem constata que Javé é o Deus da vida e que o verdadeiro culto a ele prestado é o serviço incondicional à vida e liberdade das pessoas.

8. O texto deste domingo afirma que a Sabedoria é a criatura primogênita de Deus (8, 22-26). Ela recebeu a vida no princípio dos planos divinos sobre a criação. Isso significa que a criação é resultado da vontade soberana de Deus em comunicar vida. Os vv. 22-26 comprovam essa afirmação: não existiam os abismos (águas subterrâneas, mares e rios), nem fontes  abundantes; não existiam montes nem colinas; não havia terra nem campos, e Deus já planejara um mundo de liberdade e vida para todas as suas criaturas.

 9. O mundo de liberdade e vida começou a existir (vv. 27-29): Deus colocou os céus, traçou o horizonte sobre as águas do oceano, condensou as nuvens lá no alto, controlou as fontes dos oceanos, assinalou limites ao mar e colocou os fundamentos da terra. Lá, ao seu lado, estava a Sabedoria, ou seja, seu projeto de liberdade e vida para toda a criação. O texto personifica esse projeto: é como um mestre-de-obras (v. 30), junto ao qual Deus se inspira, a fim de que a vida seja bem sucedida em todas as suas manifestações.

10. A criação transpira vida em todos os sentidos. Mas o projeto de liberdade e vida só se realiza plenamente quando as pessoas o assumem como próprio: “…brincava na extensão de  sua terra, encontrando minhas delícias em ficar em meio aos homens” (v. 31).

11. O Novo Testamento leu esse texto à luz da encarnação. Jesus é a Sabedoria de Deus “que encontrou suas delícias em ficar no meio de nós” (cf. Jo 1,1-18; 1Cor 1,16-17.24-30).

Evangelho (Jo 16,12-15): “A Santíssima Trindade é a melhor comunidade”

 

12. Os quatro versículos que a liturgia escolheu para este domingo pertencem ao discurso de despedida de Jesus. Vários são os temas abordados nesse discurso. Um deles é o da função do Espírito Santo. É disso que se ocupam os versículos deste domingo.

 a. Função do Espírito: guiar à verdade completa  (vv. 12-14)

13.  Antes de entregar a vida por amor, Jesus fez os discípulos estarem a par de tudo o que o Pai estava realizando por meio dele (cf. 15,15: “Eu chamo vocês de amigos, porque eu comuniquei a vocês tudo o que ouvi de meu Pai”). No trecho de hoje, todavia, Jesus afirma: “Tenho ainda muitas coisas para lhes dizer, mas agora vocês não podem compreender” (v. 12).Não há contradição entre as duas passagens de João. Realmente, Jesus deu a conhecer tudo o que ouviu de seu Pai, mas as consequências desse conhecimento e a repercussão dos gestos de Jesus não são claras para os discípulos, aos quais Jesus confia a continuidade de sua missão (cf. 20,21).

14. De fato, o evangelho de João registra pelo menos duas passagens onde se afirma que só depois da ressurreição de Jesus é que os discípulos puderam compreender o alcance de suas palavras (cf. 2,22; 12,16).

15. Surge, assim, a função do Espírito: é aquele que conduz a comunidade cristã à verdade completa (v. 13a). Em 14,6 Jesus se autodefiniu a Verdade, ou seja, ele é a expressão máxima da fidelidade do Deus que caminha com o seu povo. É nesse sentido que Jesus é a Verdade, pois ele disse e fez tudo o que o Pai quis dizer e realizar para o bem da humanidade. O termo verdade, no evangelho de João, está associado à aliança e à revelação. Vivendo no meio de nós, Jesus dá a conhecer o Deus que é nosso parceiro e aliado fiel na caminhada.

16. Ora, o “Espírito da verdade” tem como função conduzir os cristãos à “verdade completa”. Em outras palavras, ele nosguia na compreensão de que Deus se manifestou definitivamente em seu Filho, morto e ressuscitado; por meio dele descobrimos que Jesus realizou plenamente o projeto do Pai. Jesus é, para os cristãos, contínuo lugar de encontro com os planos de Deus para a humanidade inteira.

17. Mas não é só essa a função do Espírito. Ao longo do evangelho de João descobre-se que a verdade não é objeto depura contemplação. Já em 3,21 Jesus afirmava que ser cristão é “fazer a verdade”; mais adiante, em 14,12, ele diz: “Quem acredita em mim fará as obras que eu faço, e fará maiores do que estas, porque eu vou para o Pai”. O que significa “fazer a verdade” e “fazer obras maiores”? Em poucas palavras, é dar continuidade, em tempos e circunstâncias diferentes, às ações libertadoras de Jesus, manifestando assim que Deus é o parceiro fiel que caminha com seu povo. Em termos joaninos, é lutar contra “o espírito do mundo” e contra “as trevas” que levaram Jesus à morte, e continuam oprimindo e matando em nossos dias.

18. Nesse esforço, a comunidade cristã é iluminada e guiada pelo Espírito da verdade que a conduz à verdade completa. Ele  nos fala do projeto de Deus realizado em Jesus e aponta para nós o que significa aderir, hoje, a essa pessoa e a seu projeto . É nesse sentido que entendemos a expressão: “O Espírito anunciará a vocês o que deverá acontecer” (v. 13b). O Espírito não é futurólogo, e sim a memória do passado de Jesus para o  hoje da caminhada dos que crêem. É assim que ele manifesta a glória de Jesus (cf. v. 14a).

b. “ A Santíssima Trindade é a melhor comunidade” (v. 15)

19. Jesus afirma: “Tudo o que pertence ao Pai é meu também” (v. 15a). Ele e o Pai têm em comum a glória, o amor e o Espírito (1,14: “E nós contemplamos a sua glória: glória doFilho único do Pai, cheio de amor e fidelidade”; cf. 1,32). Entre Jesus e o Pai há perfeita união, comunhão e partilha do ser e do agir, a ponto de Jesus afirmar: “O Pai e eu somos um”(10,30).

 20. O Espírito, por sua vez, não age independentemente ou contra o clima de união, comunhão e partilha existentes entre o Pai e Jesus. “O Espírito não falará por si mesmo, mas falará tudo o que ouvir… ele vai receber daquilo que é meu e anunciará a vocês” (vv. 13b.14b.15b). O Espírito é essencialmente escuta e disponibilidade. Essas duas características são como que a carteira de identidade de quem assume o projeto de Deus para o hoje de nossa história.

 21. Na Trindade reina um clima de união, comunhão, partilha e fidelidade, sem perda da própria identidade. Jesus, que é um com o Pai, partilha o que é seu com o Espírito. Este, por seu turno, comunica e atualiza à comunidade cristã o que ouviu e recebeu. Por isso é que podemos afirmar: “A Santíssima Trindade é a melhor comunidade”. 2ª leitura (Rm 5,1-5): Fé, esperança e amor: nelas celebramos a vida da Trindade

 22.  Na carta aos Romanos, Paulo “expõe, de maneira serena, ordenada e profunda, a doutrina que já havia exposto de modo polêmico na Carta aos gálatas: a gratuidade da salvação pela fé. Ele mostra que só Deus pode salvar e que ele salva não apenas os judeus, mas toda a humanidade destruída pelo pecado. E Deus salva através de Jesus Cristo. Ora, para que a humanidade seja salva, Deus lhe dá uma anistia geral sob uma condição: que os seres humanos acreditem em Jesus Cristo, manifestação suprema do amor de Deus à humanidade, e se tornem discípulos dele. A seguir, o Espírito age dentro do homem, assim anistiado, e constrói nele uma vida nova, que destrói o pecado. Solidarizando-se com Jesus Cristo, princípio da nova humanidade (novo Adão), a humanidade pode recomeçar seu caminho e salvar-se” ( Bíblia Sagrada — Edição Pastoral , Paulus,p. 1440).

 23. Os versículos da leitura de hoje fazem parte de uma seção maior (caps. 5-11), cujo tema central é este: pela fé em Jesus  Cristo morto e ressuscitado, o cristão encontra, no amor de Deus e no dom do Espírito, a garantia da salvação. Frutos  dessa fé são a paz com Deus (5,1), a situação de graça e a esperança (v. 2), o amor e o dom do Espírito (v. 5). Em outras palavras, podemos afirmar que a fé nos faz viver e celebrar avida da Trindade.

 24. Tendo acreditado no Cristo (fé) e feito a experiência do amor de Deus pelo Espírito (amor), resta às comunidades cristãs traduzir a fé na vida (esperança). E isso não é tarefa fácil. Na perspectiva de Paulo, conseqüência imediata disso são as tribulações, ou seja, os sofrimentos internos e externos provocados pela prática da fé numa sociedade hostil e opressora (v. 3a). Paulo se orgulha desses sofrimentos, pois já os leu à luz do projeto de Deus: “Para você basta a minha graça, pois é na fraqueza que a força manifesta todo o seu poder”(2Cor 12,9).

 25. Para quem acredita na vitória de Jesus sobre a injustiça e a morte, as tribulações, longe de desanimar, produzem perseverança e firmeza, levando as pessoas à resistência, virtude característica dos mártires que não se dobram diante de ameaças de morte, pressões, boicotes e difamação dos que rejeitam o projeto de Deus (v. 3b).

 26. E Deus, onde se situa dentro dos conflitos? Ele é o aliado fiel que aprova a prática da resistência cristã (v. 4a). Deus garante que a resistência cristã a tudo o que vai contra a vida é autêntica práxis evangélica, à semelhança daquilo que Jesus fez (v. 4b). Paulo já afirmara isso em outras ocasiões, para comunidades que ele fundou (cf. At 14,22; 1Ts 1,6; 2Ts 1,5-7); agora ele o recorda a uma comunidade que não conhece. Com isso incentiva todos os cristãos de todos os tempos a uma prática de resistência diante de tudo o que não é objeto de esperança da glória de Deus.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

 27. A festa de hoje mostra quem é a Trindade:

União, comunhão e partilha. Deus se revelou na criação, pondo em ação seu projeto de liberdade e vida para todos (1ª leitura, Pr 8,22-31). Revelou-se na caminhada do seu povo, falando e agindo pessoalmente em Jesus Cristo. Continua agindo no Espírito da verdade que guia os cristãos à verdade plena do Filho de Deus (evangelho, Jo16,12-15). Revela-se no hoje de nossa caminhada mediante a prática das comunidades que resistem para implantar o projeto de Deus (2ª leitura, Rm 5,1-5).

 28. Festa da Trindade, festa da comunidade cristã. A Santíssima Trindade é a melhor comunidade. O que significa para as comunidades cristãs “deixar-se conduzir à verdade completa”? O que fazer diante de projetos políticos e econômicos que não traduzem o projeto de vida para todos? Porque os cristãos têm de resistir para serem aprovados por Deus?

 

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