O mistério na vida... Circulando, fluindo... nos elementos, nas estações. Palavra que brota, agir que floresce... A luz pascal que incendeia a festa da existência. A soma dos "ires-e-vires", de homens e mulheres que celebram, se encantam, e se enredam, no cuidado com o mundo, na busca do Reino.

DESTAQUES SEMANAIS

Governo em guerra contra o saber - José de Souza Martins*

17/05/2019

 

Publicado em Valor Econômico [Suplemento Eu& Fim de Semana, Ano 20, Nº 962,

S. Paulo, sexta-feira, 10 de maio de 2019, p. 3]

Governo em guerra contra o saber

José de Souza Martins*

J. S. Martins, “Noite sobre o campus” (2002)

 

Acompanhei pela TV a abdicação do Imperador Akihito, do Japão, no dia 30 de

abril. Os ritos de poder e de autoridade revelam o que é a política nos países que os praticam. Tento entender nossa pobreza no que a isso se refere.

O ex-Imperador e sua consorte são intelectuais que, com sua cultura, tem dado

um rosto ao seu carisma. Ele tem sido líder e inspiração de um país de grande

desenvolvimento científico, técnico e econômico. Se o modelo de sociedade que nos está sendo imposto aqui fosse aplicado lá, o Japão sofreria um imenso retrocesso social e cultural.

Eles, seguindo, aliás, as tradições de seu país, tem grande interesse em agricultura e ambos se dedicam, dentre tantos compromissos, também ao trato da

terra com as próprias mãos. Sorte deles não ter por lá um ministro da educação do

tipo que lhes proibisse a Sociologia e a Filosofia, condenando-os só à agricultura.

Para eles, como para outros japoneses lavradores, a agricultura, o arroz, as verduras, as árvores, os peixes são também oferendas, fazem parte da poesia da vida. Durante sua era, que terminou no dia 30, o ano era inaugurado num encontro

com poetas, em palácio, para ali recitarem seus versos, com a participação da então Imperatriz, também poetisa, pianista e compositora. Ela musicou vários poemas de seu marido. É autora de um tocante poema sobre a alegria do primeiro aleitamento de seu primeiro filho, o agora novo Imperador, também músico, violinista. O então Imperador tinha o hábito de encontrar-se em palácio, no início do ano, com a comunidade científica, agrupada por áreas de conhecimento. Ele é um colega, pois cientista reconhecido, especializado em ictiologia, que fez a classificação científica de oito peixes. É autor de trinta “papers” científicos. Quando do terceiro centenário de Carl Lineu, em 2007, pai da taxonomia científica, fez uma longa conferência em inglês, em Londres, sobre a vida e a obra desse cientista sueco. O Imperador participa de congressos científicos.

No seu encontro anual com os cientistas japoneses, o primeiro grupo a ter suas

comunicações ouvidas é o dos pesquisadores das Ciências Humanas. Para ele, essas  ciências são concebidas como o que realmente são: ciências. Instrumentos de compreensão dos problemas sociais e de formação da consciência científica da

sociedade. Como propôs o alemão Hans Freyer e, aqui no Brasil, Florestan Fernandes. Aliás, por isso, preso pelo Exército e, em 1969, cassado pela ditadura e afastado da USP. Esse interesse do então Imperador é mais do que compreensível. As Humanas são o meio para explicar e enfrentar os problemas sociais decorrentes das irracionalidades do pensamento unidirecional, cuja economia sufoca este país de mais de 13 milhões de desempregados. No Japão do Imperador, o conhecimento é criativo. Aqui querem nos impor o conhecimento copiativo e cúmplice. Para cumprir o seu errático plano político, o novo regime brasileiro, embutido numa distorção das eleições de 2018, que não foi um plebiscito, declarou guerra à Universidade pública, laica e gratuita. Uma guerra obscurantista contra a inteligência. As frentes de ataque são várias. Em S. Paulo, um deputado, sem curso superior, propôs uma comissão parlamentar de inquérito contra as três Universidades públicas estaduais, a USP, a Unesp e a Unicamp para questionar o uso de seus recursos, aliás insuficientes.

Por seu lado, após visita a uma universidade privada, o presidente da República

chegou a afirmar que a Universidade pública brasileira não faz pesquisa científica.

Está completamente desinformado sobre o que é a ciência brasileira e o que é a nossa Universidade pública, responsável pela maior parte da pesquisa científica no País. Aqui a ciência é de ponta, internacionalmente reconhecida. São públicas, as

universidades brasileiras melhor avaliadas nos ranking internacionais.

O ministro da educação e o presidente minimizam a Filosofia e a Sociologia.

Querem que a escola forme o trabalhador lucrativo, o que se entende. Já a Sociologia e a Filosofia querem formar o trabalhador pensante, não o brasileiro carneiril. Sem a visão humanista, as ciências duras podem criar robôs, mas não podem criar pessoas. A mentalidade desumanizada que caracteriza pronunciamentos e ações de membros do governo, sobretudo na área da cultura, do patrimônio histórico e ambiental, é alarmante indicação dos efeitos mentais dessa visão distorcida do conhecimento. No Japão, o Imperador ouve centenas de cientistas e pensadores para iluminar seus horizontes. Aqui o governante ouve um astrólogo, para que lhe adivinhe o recado das estrelas neste eclipse de nossa história. O Brasil ignorante quer por de joelhos o Brasil culto e sábio.

 

*José de Souza Martins é sociólogo.

Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP.

Membro da Academia Paulista de Letras.

 

Entre outros livros, autor de

Uma Sociologia da Vida Cotidiana (Contexto).

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