O mistério na vida... Circulando, fluindo... nos elementos, nas estações. Palavra que brota, agir que floresce... A luz pascal que incendeia a festa da existência. A soma dos "ires-e-vires", de homens e mulheres que celebram, se encantam, e se enredam, no cuidado com o mundo, na busca do Reino.

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A queixa de Deus

31/08/2018

A queixa de Deus

REVISTA IHU ON-LINE

31 Agosto 2018

 

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos 7,1-8.14-15.21-23 que corresponde ao 22° Domingo do Tempo Comum, ciclo B, do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto. 

 

Eis o texto

 

A queixa de Deus

Um grupo de fariseus da Galileia aproxima-se de Jesus em atitude crítica. Não vêm sós. Estão acompanhados por alguns escribas vindos de Jerusalém, preocupados sem dúvida em defender a ortodoxia dos simples camponeses das aldeias. A atuação de Jesus é perigosa. Convêm corrigi-la.

Observaram que, em alguns aspectos, os seus discípulos não seguem a tradição dos mais velhos. Apesar de falarem do comportamento dos discípulos, a sua pergunta dirige-se a Jesus, pois sabem que é Ele quem lhes tem ensinado a viver com aquela liberdade surpreendente. Por quê?

Jesus responde-lhes com umas palavras do profeta Isaías que iluminam muito bem a Sua mensagem e a Sua atuação. Estas palavras com as que Jesus se identifica totalmente têm de escutá-las com atenção, pois tocam em algo muito fundamental da nossa religião. Segundo o profeta de Israel, esta é a queixa de Deus.

«Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim». Este é sempre o risco de toda a religião: dar culto a Deus com os lábios, repetindo fórmulas, recitando salmos, pronunciando palavras bonitas, enquanto o nosso coração «está longe Dele». No entanto, o culto que agrada a Deus nasce do coração, da adesão interior, desse centro íntimo da pessoa de onde nascem as nossas decisões e projetos.

Quando o nosso coração está longe de Deus, o nosso culto fica sem conteúdo. Falta-lhe a vida, o escutar sincero da Palavra de Deus, o amor ao irmão. A religião converte-se em algo exterior que se pratica por hábito, mas em que faltam os frutos de uma vida fiel a Deus.

A doutrina que ensinam os escribas são preceitos humanos. Em toda a religião há tradições que são «humanas». Normas, costumes, devoções que nasceram para viver a religiosidade numa determinada cultura. Podem fazer muito bem. Mas fazem muito mal quando nos distraem e afastam do que Deus espera de nós. Nunca devem ter a primazia.

Ao terminar a citação do profeta Isaías, Jesus resume o Seu pensamento com umas palavras muito graves: «Vocês deixam de lado o mandamento de Deus para agarrarem-se à tradição dos homens». Quando nos agarramos cegamente a tradições humanas, corremos o risco de esquecer o mandato de amor e desviamo-nos de seguir a Jesus, Palavra encarnada de Deus. Na religião cristã, em primeiro é sempre Jesus e a Sua chamada ao amor. Só depois vêm as nossas tradições humanas, por muito importantes que nos possam parecer. Não temos de esquecer nunca o essencial.

 

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