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DESTAQUES SEMANAIS

Transubstanciação - Intercomunhão - Pe. Márcio Pimentel, Assessor eclesiástico para a Liturgia em BH

09/03/2018

"Como estudioso da Liturgia,

 

vejo-me interpelado a compor trilhas fieis a Jesus, na ótica proposta por Francisco em consonância com a Tradição mais genuína da Igreja, para ter sucesso na empreitada de reconciliar os ritos com Evangelho, sempre provocador e altamente subversivo", escreve Márcio Pimentel, presbítero da Arquidiocese de Belo Horizonte, especializado em Liturgia pela PUC-SP e música ritual pela FACCAMP, assessor eclesiástico para a Liturgia na mesma Arquidiocese, membro da Equipe de Trabalho para o Espaço Sagrado para a Catedral Cristo Rei e Mestrando em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Teologia e Filosofia (FAJE), bolsista da CAPES.

Eis o artigo.

 

Reação

Tento conter as reações deflagradas pelo significado da afirmação do atual prefeito Cardeal Sarah sobre a comunhão “na língua e de joelhos”, de modo que nos portemos “como crianças” ao celebrar a Eucaristia. Transparece em seu escrito, tal e qual foi traduzido, falta de argumentação, escassez de fontes autoritativas em matéria litúrgica e certa obstinação em demonizar a reforma litúrgica. Isso me parece, mais uma vez, desalentador. Com todo o respeito devido e esperado ao Cardeal Prefeito da Congregação para o Culto Divino, tenho que concordar com outros colegas teólogos que, enquanto o Pontífice parece caminhar numa direção (a do Concílio Vaticano II, obviamente) um dentre seus colaboradores diretos – chefe de um Dicastério – posiciona-se explicitamente numa rota diametralmente oposta. Enquanto Francisco insiste para que redescubramos o sentido da reforma litúrgica, compreendendo suas opções mais do que questionando suas escolhas, aqui e ali ela é culpabilizada sem pudor e sem critérios, como principal responsável pela perda da “sacralidade” da fé católica.

Transubstanciação - Intercomunhão

Desconcerta-me o fato de que exatamente aquele que deveria ser o guardião das conquistas da Igreja em vista do desenvolvimento e exercício do sacerdócio comum dos fiéis, cuja participação per ritus et preces realiza e exprime, lance-se uma e outra vez posições que parecem objetivar – a todo custo – o retorno a uma forma fidei colapsada. Afinal, recomendou-se vivamente uma reforma geral da Liturgia porque naquele momento eclesial, ela muito pouco revelava e dava acesso ao Evangelho de Jesus. Essa insistência curial (somada a outras em áreas diversas) não seriam aqui um caso exemplar de “mumificação das estruturas”, nas recentes palavras do Pe. José Tolentino Mendonçaem sua pregação à Curia Romana. Neste sentido, pergunto-me se classificação da possibilidade de intercomunhão como sacrilégio e ultraje não denota um esquema teológico preso à uma mentalidade que não se deixou converter à mudança de paradigma operada pelo Concílio Vaticano II. Na verdade, as investidas tomadas por ‘diabólicas’ no contexto da Liturgia, de sua celebração e de sua teologia, são exatamente o contrário: um movimento criativo, fiel à tradição mais genuína da Igreja, que concede ao Espírito – que é livre e sopra onde quer – a primeira e última palavra, fazendo-nos rumar todos à unidade e comunhão. Como pode ser “diabólico” repensar conceitualmente as categorias antropológicas, filosóficas, linguísticas e teológicas com as quais se possa exprimir e narrar a presença do Senhor em meio ao seu povo? Quem nos trancou a inteligência numa aula do IV Concílio de Latrão (séc XIII), de modo que só se possa falar da santificação do pão e do vinho com o termo ‘transubstanciação’ adaptado da filosofia de então? Não seria isso verdadeira ‘embolia’ intelectual, mais especificamente, ‘embolia’ teológica? Quantos nomes a Eucaristia recebeu com o passar dos séculos, sendo que uns foram dando lugar a outros, à medida que não mais mediavam o conhecimento daquilo que conceituavam...? Não nos demos conta ainda, como muito bem atesta Pe. Taborda numa entrevista, que a própria noção de substância da qual depende o termo ‘transubstanciação’ modificou-se? Não mais se trata de uma categoria metafísica, mas diz respeito à constituição químico-física da realidade o que é completamente disparatado da perspectiva medieval, original na composição do termo em questão. Interessante ressaltar que a oração com a qual se dá a transformação dos dons, desconheça tal termo, cunhado na época tardo-medieval.

Comungar

Especificamente sobre a maneira de comungar, os que dizem apreciar “as coisas mais antigas”, porque aparentemente são mais genuínas, acaso pensam que o modo historicamente mais remoto de participar da comunhão era depositar a hóstia na língua do fiel de joelhos? Bom, o próprio Evangelho narra diferente: “Tomai (pegai)... e comei; tomai (pegai) e bebei...! Mas, evidentemente, que não se trata apenas de antiguidade – o que tem sua importância – mas de fidelidade ao significado radical do gesto. Os ritos se radicam na gestualidade de Jesus, de modo que a Eucaristia não pode ser compreendida senão no âmbito da comensalidade do Senhor, em sentido mais amplo, e da intencionalidade criativa com a qual institui o sacramento pascal que é a Eucaristia, em sentido mais estrito. Ora, com quem Jesus partilhava a refeição? E no caso da ‘primeira’ eucaristia, como se estipulou o memorial que reiteramos cada vez e sobretudo dominicalmente?

Ritualidade

A sacralidade dos ritos está relacionada à sua capacidade de “emular” nos fiéis a gestualidade e a palavra de Jesus em sua conexão com o Reinado de Deus, conteúdo nuclear de seu Evangelho. Na verdade, o Concilio migrou de um a outro conceito: da sacralidade da forma à santidade do evento participado, cuja fidelidade da mediação - linguagem ritual – deve favorecer. Assim, para exprimir a entrega sacrifical do Senhor não temos um rito sacrifical, mas herdamos um ritual de comensalidade, um Banquete. As categorias antropológicas que subjazem à experiência e expressão da refeição de Jesus com os apóstolos na véspera da sua paixão permanecem ativas e devem dialogar com as culturas que recebem em seu bojo a experiência ritual da fé cristã. E aqui se encontra todo valor e beleza da inculturação.

Também, a perspectiva da “nobre simplicidade” recomendada pelos padres conciliares, registrada na Constituição sobre a Sagrada Liturgia e implementada na reforma geral dos livros litúrgicos deveria ser recuperada. Um vazio “programático” que no rito romano serve de espaço fecundo para o encontro missionário com as culturas. Sobretudo com a “liberação” da Missa piana e pela via tumultuada das imposições curiais pré-Francisco difundidas aqui e acolá pelos mass media, as comunidades tem voltado a ‘entulhar’ a celebração com elementos tanto da religiosidade popular quanto do Ordochamado agora de extraordinário, que dificultam a experiência ritual dos fiéis, confundindo a inteligência dos ritos que devem transparecer na forma ritus a forma Christi. Tem-se voltado paulatinamente à superposição ritual, fazendo coexistir numa mesma celebração símbolos díspares. De um programa ritual, iconográfico, eucológico e musical articulado tal e qual a reforma concebeu, retrocede-se à combinação de elementos literários, orais, cinestésicos, sinestésicos e cenestésicos conflituosos. Não mais temos um microcosmos, mas um típico caos. Tudo isso mediado por uma estética confusa, sem rosto e sem verdade e por uma ‘poiética’ que tem no centro o ministro ordenado que, em alguns casos evoluiu para o animador de auditório e noutros, involuiu à figura hierática pré-conciliar. A Assembleia, grande sujeito da celebração litúrgica, enquanto realização da “unidade do Espírito Santo”, vai sendo deixada – mais uma vez – de lado. Andrea Grillo em seu comentário à afirmação do Cardeal, relata com exatidão a estética e poiética litúrgicas esperadas e requeridas com a reforma do Ordo Missae: “Andar processionalmente (não de joelhos) rumo ao altar para receber (na mão) a partícula (produzida na “fractio panis”), para se tornar aquilo que se recebe (Corpo de Cristo eclesial a partir do Corpo de Cristo sacramental): não há nenhum rastro disso nas palavras do cardeal Sarah.”

Lex Orandi

Outra questão séria reproposta no prefácio do Cardeal, diz respeito ao retorno da inversão do adágio lex orandi lex credendi. Quando se afirma que “a fé na presença real pode influenciar a maneira de receber a comunhão” se está dizendo que a maneira de crer estabelece a forma de celebrar, quando se sabe que a Igreja, desde a antiguidade, sempre tratou de cuidar para que a norma do crer se estabelecesse a partir da oração, isto é, do ato relacional da Aliança Nova e Eterna em Jesus: Ao Pai, pelo Filho no Espírito! A fixação quase microscópica nos “fragmentos” é claramente reducente do significado da presença do Senhor no pão e vinho santificados (ops! Transubstanciados....). O pão foi convertido exatamente para ser fragmentado: partido, repartido e compartido. Assim se cumpre pelo gesto sacramental e não apenas pela “matéria” o desejo de Jesus, que todos se vinculem a Ele e se tornem um com Ele e nEle pela via da eclesialidade derivada da eucaristia celebrada. O receio exageradamente escrupuloso de que os fragmentos se perdessem foi um dos elementos que conduziu o rito da comunhão a não mais significar – como deveria – aquilo que Jesus nos mandou celebrar. A comunhão tornou-se paulatinamente um ato não apenas devocional, mas sobretudo individual o que incidiu primeiro no próprio formato da ‘partícula’ a que estamos acostumados, que na verdade é um pequeno inteiro; e também na “forma” do rito, de modo que passou-se da comunhão na mão à comunhão diretamente na língua, de joelhos e não mais de pé, numa fila que terminava na “mesa de comunhão” e não mais numa procissão orientada para o altar, centro da fé cristã pois rememora a entrega do Filho para que todos a ele vinculados nos tornemos também filhos e filhas.

Conclusão

Enfim, são muitos os pensamentos e sentimentos depois de ler as palavras do Cardeal. Como presbítero da Igreja, percebo-me ainda mais encorajado a ajudar os fiéis, meus irmãos e irmãs, a descobrirem a beleza e importância da Eucaristia nos moldes do Concílio Vaticano II e da Reforma Litúrgica. Como estudioso da Liturgia, vejo-me interpelado a compor trilhas fieis a Jesus, na ótica proposta por Francisco em consonância com a Tradição mais genuína da Igreja, para ter sucesso na empreitada de reconciliar os ritos com Evangelho, sempre provocador e altamente subversivo.

 

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