O mistério na vida... Circulando, fluindo... nos elementos, nas estações. Palavra que brota, agir que floresce... A luz pascal que incendeia a festa da existência. A soma dos "ires-e-vires", de homens e mulheres que celebram, se encantam, e se enredam, no cuidado com o mundo, na busca do Reino.

DESTAQUES SEMANAIS

VIGÉSIMO PRIMEIRO DOMINGO - TC/ANO B

21/08/2021

21º Domingo do Tempo Comum – Ano B –

Crer e Reconhecer Jesus, o Pão da Vida

Simone Furquim Guimarães, leiga, teóloga. 20 Agosto 2021

 

"A comunidade joanina compreendeu o gesto de Jesus na partilha do alimento e elevou este entendimento para um sentido mais profundo: Jesus é o Pão Vivo descido do céu (v. 51). É o pão espiritual, teológico, que trabalha para a realização das obras do Pai (v. 29). João entendeu o sentido do Pão vivo, mas muitos discípulos não compreenderam a sua missão e suas palavras. O evangelista elabora uma reflexão sobre essa incompreensão: os discípulos consideravam uma blasfêmia Jesus revelar uma identidade divina: “Eu sou o pão vivo descido do Céu. Quem comer deste pão viverá para sempre” (v. 51). Muitos discípulos (cf. v. 60) disseram: “Essa palavra é dura! Quem pode escutá-la?”; e então, “voltaram atrás e não andaram mais com ele” (v. 66), romperam com o Seguimento de Jesus."

 

A reflexão é de Simone Furquim Guimarães, leiga, teóloga. Ela é mestre em teologia bíblica pela Faculdades EST. É assessora e coordenadora do Cebi-Planalto Central.

 

Leituras do Dia


1ª Leitura - Js 24,1-2a.15-17.18b
Salmo - Sl 33,2-3.16-17.18-19.20-21.22-23 (R.9a)
2ª Leitura - Ef 5,21-32
Evangelho - Jo 6,60-69

 

A leitura do Evangelho deste domingo encerra a reflexão sobre o “Pão da Vida”, que foi tema da liturgia de três domingos neste mês de agosto e que compreende o capítulo 6 do Evangelho de João. Este longo discurso temático chama nossa atenção para a centralidade do pão, da comida, do alimento, pois tem a ver com economia e com teologia. Estas duas dimensões da vida humana caminham juntas aqui neste capítulo. Jesus sabe que “ter o que comer” é uma das maiores garantias da dignidade da pessoa humana (cf. vv. 5-13). E tem a ver com teologia, porque a partilha do pão, a eucaristia ensinada por Jesus, reúne em si o projeto de Deus para todo ser humano: que é ter vida em abundância, vida em plenitude (cf. vv. 26ss).

 

"A comunidade joanina compreendeu o gesto de Jesus na partilha do alimento e elevou este entendimento para um sentido mais profundo: Jesus é o Pão Vivo descido do céu (v. 51). É o pão espiritual, teológico, que trabalha para a realização das obras do Pai (v. 29). João entendeu o sentido do Pão vivo, mas muitos discípulos não compreenderam a sua missão e suas palavras. O evangelista elabora uma reflexão sobre essa incompreensão: os discípulos consideravam uma blasfêmia Jesus revelar uma identidade divina: “Eu sou o pão vivo descido do Céu. Quem comer deste pão viverá para sempre” (v. 51). Muitos discípulos (cf. v. 60) disseram: “Essa palavra é dura! Quem pode escutá-la?”; e então, “voltaram atrás e não andaram mais com ele” (v. 66), romperam com o Seguimento de Jesus."

 

O evangelista ensina que para estar no seguimento de Jesus devemos ser obedientes ao Espírito. Jesus explica aos Doze que é o Espírito que vivifica. Ou seja, quem ouve e acolhe o Espírito de Deus, seguindo o sentido das coisas de Deus, seguindo o projeto proposto por Deus, que é de cuidar da criação, cuidar das pessoas para que não haja pobres em nosso meio. Esse sim consegue entender a essência do EvangelhoJesus é o Evangelho vivo, é o alimento espiritual que nos nutre para o compromisso com a justiça e a paz. Participar do pão vivo que é Jesus na Santa Ceia, implica em também ser pão que gera sustento e sentido de vida para as pessoas.

 

Jesus oferece aos Doze a opção de estar no seu seguimento. Ele pergunta: “Não quereis também vós partir?”. Agora é o momento dos discípulos decidirem e de professarem sua fé.

A firme profissão de fé no Deus da vida e permanência em seu projeto é repetida em vários livros da Bíblia, assim como no livro de Josué, quando as tribos reunidas numa confederação vão dizer: “Iahweh é o nosso Deus” (v. 18), “não vamos abandoná-lo” (v. 16a). Ele é o Deus libertador, aquele que nos fez subir da terra o Egito, da casa da escravidão (cf. v. 17). Em forma de cânticos, como o Salmo 34 que reconhece que Iahweh é bom, feliz o homem que nele se abriga (Sl 34,9). Esta é a fé que o antigo Israel nos ensina e que ficou na memória das comunidades cristãs. E na segunda leitura, a Carta aos Efésios exorta a igreja a manter-se unida a Cristo, como a relação do esposo e esposa, como um pacto, uma aliança matrimonial (Ef 5,32).

 

Aqui é importante abrir um parêntesis para comentar sobre esse texto da carta aos Efésios.

 

Como essa narrativa é muito usada para justificar em nome de Jesus a violência contra a mulher, convém dizer que, diferentemente de Paulo em suas cartas autênticas, em que propõe a radical igualdade entre mulheres e homens (cf. 1Cor 7; Gl 3,28), as cartas pós-paulinas reintroduzem os códigos de deveres domésticos (Cl 3,18–4,1; Ef 5,21–6,9), isto é, de sujeição das mulheres, das crianças e dos escravos. Embora esses textos exijam uma contrapartida aos homens (“amar suas mulheres”), pais (“não dar motivo de revolta a seus filhos”) e senhores (“não ameaçar seus escravos”), esses códigos mantêm a desigualdade, a inferioridades de mulheres, crianças e escravos. Por isso, precisamos voltar a Jesus e ao Paulo histórico, que propõem amor e respeito mútuos, como ainda sugere Ef 5,21, e não sujeição e temor unilaterais (cf. Ef. 5,22-24.33).

 

Como igreja reunida, na celebração eucarística, somos convidados e convidadas a continuamente professar a fé, assim como Pedro: “Senhor, Tu tens palavras de vida eterna e nós cremos e reconhecemos que és o Santo de Deus” (v. 68). Somos convocados a viver essa fé partilhando em solidariedade nossa vida, nossos bens materiais e espirituais com os irmãos e as irmãs, sobretudo os mais necessitados.

 

Atualmente, vivemos no contexto de morte: cresce a miséria e a fome, causada não somente pela COVID 19, mas, sobretudo, por falta de um projeto de política pública que cuide verdadeiramente das pessoas. Jesus está a nos perguntar: “Onde vamos comprar pão para que estes possam comer?” (Jo 6,5). Será que, como aqueles que abandonaram Jesus, não estamos também abandonando o projeto de Deus quando permitimos filas de mulheres em busca de ossos para alimentar seus filhos num país orgulhosamente conhecido como católico e cristão? Será que estamos dividindo os alimentos com os que precisam?

 

Que Jesus, o pão vindo do céu, nos motive na caminhada de tornar nossas comunidades e paróquias sinais de pão repartido e alimento espiritual que nos leva a construir uma sociedade sem necessitados.

 

Que tornemos nosso, o lema de Francisco e Clara dos pobres: “pão para quem tem fome e fome de justiça para quem tem pão”.

 

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