O mistério na vida... Circulando, fluindo... nos elementos, nas estações. Palavra que brota, agir que floresce... A luz pascal que incendeia a festa da existência. A soma dos "ires-e-vires", de homens e mulheres que celebram, se encantam, e se enredam, no cuidado com o mundo, na busca do Reino.

DESTAQUES SEMANAIS

Festa de ḥănūkkāh, Festa das Luzes em Israel

05/02/2021

Festa de ḥănūkkāh, Festa das Luzes em Israel

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Por| Frei Hermes Abreu, ofm

Introdução

O que é ḥănūkkāh? Também conhecida como festa das luzes, é uma das mais belas festas judaicas. Sobre esta celebração se ocupa este texto.

Primeiramente, vamos voltar às origens desta festa. Para tanto, retrocedamos no tempo, ao ano de 167 aC. Quando Israel era dominada pelos gregos. Estes, proíbem certas práticas judaicas, entre elas, a circuncisão, o  shabāt (sábado judaico), e – para o horror dos judeus – pegam o Templo de Jerusalém, lugar mais sagrado para o judaísmo, e o transformam em um templo pagão. Sob o afã desta afronta, os judeus declaram guerra aos gregos. Guerra ao maior império e maior exército da época. Contra todas as probabilidades, um grupo de judeus – sem nenhum treinamento militar, sem um exército organizado – vão vencer os gregos. Uma vitória quase que milagrosa, conquistando sua liberdade e reconquistando o Templo de Jerusalém.

Como começou a invasão helênica?

Depois das lutas entre os generais de Alexandre Magno, a dominação dos gregos sobre a Palestina pode ser dividida em dois grandes períodos. Num primeiro momento, isto é, de 301 a 198 aC, a Palestina ficou sob o domínio da dinastia do general Ptolomeu a partir de Alexandria no Egito. Depois de 198 aC, porém, os Selêucidas, como ficaram conhecidos os sucessores do general Seleuco, conquistaram a Palestina dos Ptolomeus e passaram a dominar Israel desde a Antioquia da Síria, a capital de seu império.  Os quatro chefes menores foram os quatro generais de Alexandre que dividiram o poder sobre seu grande império, logo após sua morte.

A dinastia dos Ptolomeus é assim chamada porque o nome do primeiro rei dessa dinastia foi Ptolomeu, um dos quatro generais de Alexandre Magno. Como seu pai se chamava Lagos, também é conhecida como a dinastia dos Lágidas. 

O primeiro rei desse novo império foi Ptolomeu I Soter (323-285 aC). Entrou em Jerusalém em 320 aC, em dia de sábado, com o pretexto de levar oferendas ao Templo, mas o resultado foi o estabelecimento do domínio sobre a cidade e o país de Israel. Prendeu muitos judeus e os levou para Alexandria, no Egito. Ptolomeu I Soter, por outro lado, favoreceu a cultura grega em seu reinado, criando um museu em Alexandria. 

Nesse período da dominação dos Ptolomeus, os Judeus da Palestina se dividiram. De um lado, a classe dirigente e, de outro, os setores mais pobres, encarregados de manter quem estivesse no poder, porém fiéis à lei de Moisés. A classe dirigente, composta pelos chefes dos sacerdotes e por setores da aristocracia, a fim de garantir seus interesses econômicos, apoiou a introdução do modo de vida dos gregos no Judaísmo.  O sumo sacerdote dos judeus continuava desfrutando de pleno poder. Assim também as famílias ricas.

Em 2Macabeus 3,11, temos uma referência a uma dessas famílias que tinha muito dinheiro depositado no templo de Jerusalém, sinal de que o templo funcionava ao mesmo tempo como banco. Isso nos revela que as principais famílias judias estavam plenamente integradas no mundo helênico. Mais tarde, quando os Selêucidas venceram os Ptolomeus, elas apoiaram o rei Antíoco III, contra Ptolomeu V.

A presença dos gregos trouxe outra mudança significativa. A partir de agora não há mais um governador civil ao lado do sumo sacerdote, como no período persa. O próprio sumo sacerdote passa a exercer também o poder civil. A administração não era mais feita por um governador, mas por um conselho de anciãos, composto de sacerdotes e leigos, presidido pelo sumo sacerdote (lMc 12,6; 2Mc 1,10; 11,27). Mais tarde, na época dos Macabeus, esse conselho seria chamado de Sinédrio.  Com isso, aumentou ainda mais o poder do sumo sacerdote. Além de desempenhar as funções no templo, passou a exercer tarefas políticas, como representante político da comunidade judaica. No entanto, embora tivesse poder para administrar as questões internas do Judaísmo, ele tinha pouca autonomia administrativa. 

Por outro lado, houve resistência do povo da terra contra a exploração econômica e política dos gregos. Para a comunidade judaica fiel à observância da lei e ao culto no templo de Jerusalém, o mais importante de tudo era garantir a pureza de sua identidade, de sua tradição.

Por isso, reagiu fortemente contra a helenização dos costumes judaicos.  Quando mais tarde os Selêucidas impuseram na marra a cultura grega, o povo resistiu bravamente ao processo de desintegração de sua identidade. É o que veremos adiante quando estudarmos a vigorosa resistência que deu origem à luta dos macabeus.  É importante ainda lembrar que os lágidas não impuseram à força seu modo de vida, sua cultura. Porém, criaram as condições para que o helenismo fosse mudando aos poucos a mentalidade e os costumes judaicos. 

A dinastia dos Lágidas do Egito perdeu a hegemonia sobre a Judéia por volta do ano 198 aC., na batalha de Panion, e a partir dessa data os Selêucidas da Síria passaram a dominar a região da Judéia. No período dos Ptolomeus grande parte dos antigos escritos ganha redação definitiva: Esdras, Neemias e 1 e 2 Crônicas.  Os dois livros das Crônicas teriam constituído inicialmente uma só obra, igualmente Esdras e Neemias. De fato, são muito semelhantes no estilo e no conteúdo. Tratam dos mesmos temas fundamentais: o Templo, o culto, o clero, o governo de Davi, a restauração da comunidade pós-exílica e surgiram diversos outros escritos que retratam seu contexto histórico e suas problemáticas mais marcantes. A relação confortável dos sacerdotes com o poderio helênico, vem a ruir quando o poder da Grécia sobre a palestina muda de mãos e, por conseguinte, de termos.

O domínio dos Selêucidas sobre a região da Judéia começou em 198 aC., quando Antíoco III venceu os Lágidas. A troca de domínio dos Lágidas para os Selêucidas não significou apenas uma mudança de poder, mas uma significativa melhora para o povo.  A população de Judá não estava satisfeita sob o domínio dos Ptolomeus. Havia grande descontentamento. Eles eram menos generosos em conceder certos privilégios aos países dominados, pois tinham medo de perder o poder ao dar muita autonomia. Contrariamente, os Selêucidas eram mais generosos, concediam aos países dominados a liberdade de se organizarem à maneira das cidades gregas, com um conselho e as assembleias dos cidadãos, mesmo que essa liberdade não se estendesse a toda a população, como a escravos e libertos. 

Antíloco III favoreceu muito os habitantes de Jerusalém, renovando os privilégios para a cidade e o Templo por meio de um decreto especial, no qual ele reconheceu a boa acolhida que os Selêucidas tiveram por parte do Sinédrio, que saiu ao encontro deles, deu comida ao exército e aos elefantes, e ajudou o seu exército a capturar a guarnição egípcia.

Em retribuição, ajudou a reconstruir a cidade destruída pelas ações bélicas e permitiu que os habitantes dispersos voltassem para repovoar as cidades; deu liberdade aos prisioneiros; providenciou animais, sal e lenha para os sacrifícios do Templo; ofereceu vinho, azeite, incenso, grãos e farinha para os ritos; proibiu a importação de carnes ritualmente impuras; incentivou o término das obras  do Templo e liberdade para viverem a lei segundo as prescrições dos antepassados; isentou o conselho dos anciãos, sacerdotes e escribas das taxas do Templo sobre os animais e o sal; aos demais cidadãos de Jerusalém concedeu a mesma isenção de impostos durante três anos; dispensou os cidadãos de um terço dos serviços obrigatórios.

Antíoco III confirmou o direito dos judeus de se regerem segundo sua lei, a Torá (2Mc 4,11).  Nessa época, começou a destacar-se uma nova potência no cenário internacional: Roma.

Antíoco III tratou de garantir as fronteiras ao sul, depois avançou pela Ásia Menor, confrontando-se com Roma, e foi derrotado na batalha de Magnésia (Dn 11,18). Teve de entregar todo o território que já havia conquistado, desarmar o exército, pagar grande indenização e entregar seu filho como refém (lMc 8,6-7). A paz e a “autonomia” custaram-lhe muito caro. 

Antíoco III, pressionado pela enorme dívida contraída com Roma, apelava para todos os meios, lícitos ou não, a fim de saldá-la. Foi morto enquanto se apoderava do tesouro do templo de Bel, no ano 187 aC (Dn 11,19). 

Seu filho Seleuco IV (187-175 aC) sucedeu-o no trono. Procurando sanar as dívidas do seu pai, tentou saquear o Templo de Jerusalém (2Mc 3 e Dn 11,20) mas teve o mesmo fim que ele. Foi morto (2Mc 3) e seu irmão Antioco IV subiu ao trono. 

Diferentemente de seu irmão, Antíoco IV, muito pretensioso, usou o nome de uma das divindades mais invocadas na Grécia para se proclamar: “Zeus Epífanes”. Agindo dessa forma desagradou gregos e judeus, e rompeu a promessa feita por seu pai a estes, de respeitar sua autonomia religiosa e impôs o helenismo à força na Palestina desencadeando uma grande perseguição contra os judeus. 

Os judeus perdem sua cidade, seu Templo e sua dignidade

Antioco IV, agora com o acréscimo no nome de Epifanes, desestabilizou também a legitimidade da sucessão ao cargo de sumo sacerdote, nomeando ao cargo quem lhe oferecesse maiores vantagens econômicas (2Mc 4,23-29), pois precisava pagar os tributos que Roma lhe impôs.

Sua intenção era humilhar a comunidade judaica, proibindo os sacrifícios no Templo, a circuncisão, a observância do sábado, as dietas alimentares e decretou sentenças de morte para quem os praticasse. Mandou oferecer sacrifícios aos deuses (lMc 1,59; 2Mc 10,5; 6,2) no Templo de Jerusalém, e ergueu um altar dedicado à divindade pagã ”Zeus Olímpico” – esse gesto foi interpretado por Daniel como a “abominação da desolação” (Dn 9,27). 

Com a conivência do sumo sacerdote Jasão, que corrompeu o rei selêucida para obter o cargo (2Mc 4,7-9), o helenismo entrou de cheio em Jerusalém. Com a nomeação de Jasão para o sumo sacerdócio no lugar de Onias III, foi quebrada a sucessão hereditária dos sadoquitas no cargo de sumo sacerdote.  Os moradores de Jerusalém que aderiram ao Helenismo receberam inclusive o título de “cidadãos antioquenos”.

Antes de continuar seu estudo leia 1Mc 1,10-64! Como você pôde perceber, até um ginásio para atletismo foi construído na cidadela dentro de Jerusalém (lMc 1,14-15; leia ainda 2Mc 4,7-20). Pior que tudo isso, foi introduzir no próprio templo o culto a Zeus Olímpico, correspondente a Júpiter dos romanos. 

Dessa forma Jerusalém ficou dividida, de um lado judeus da classe dirigente, favorável ao helenismo, entre eles os saduceus, e do outro lado, os “hassideus”, judeus “piedosos” que resistiam em defesa da tradição judaica, fechando-se cada vez mais dentro dos limites estabelecidos pela lei.  

Os saduceus eram um grupo organizado, formado pela classe dirigente. Organizaram-se para defender seus interesses e privilégios. Eram da aristocracia sacerdotal, bem como dos setores leigos e ricos. Eram a elite ligada aos interesses econômicos do governo, do latifúndio, do templo e do grande comércio. Durante a dominação dos gregos, sua posição política era favorável à adoção da cultura helênica e à aliança estratégica com os Selêucidas, que lhes garantia uma situação econômica privilegiada.  Além de serem conservadores, viviam em torno do templo, controlando o poder e o comércio. Os saduceus mantinham sua influência sobre o povo através das alianças com quem detinham o poder. Eles não tinham mentalidade apocalíptica.

Consequentemente, não esperavam por um Messias, nem acreditavam na ressurreição. Sobre a teologia apocalíptica, trataremos adiante.  Mais tarde, apoiariam os reis asmoneus abertos à helenização da cultura judaica, como ainda veremos. Alexandre Janeu (103-76 aC), por exemplo, apoiou-se neles, quando lutou contra os fariseus. Porém, Salomé Alexandra, sua esposa, que o sucedeu no trono (76-67 aC), admitiu novamente os fariseus no Sinédrio. A partir de então, começou um conflito entre os dois grupos no grande conselho, onde os saduceus continuaram sendo a maioria.  Antíoco IV Epífanes, apesar de encontrar grande resistência, sobretudo por parte dos Macabeus e dos Assideus – comunidades de judeus apegados à Lei (lMc 2,42) -, continuou a perseguição aos judeus, até se confrontar com a resistência armada da família sacerdotal de Matatias (lMc 2,15-28). A oposição crescia cada vez mais, sobretudo no campo. Antíoco morreu como seu pai, enquanto tentava despojar um templo no ano 164 a.C., (lMc 6,1- 17; 2Mc 9; 10,9-13). 

Por fim, a vitória sobre a opressão e, com ela, a Festa das Luzes

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O primeiro a reagir diante das provocações de Antíoco IV foi Matarias, levita (lMc 2,1; ler 24,7), da aldeia de Modin situada a noroeste de Jerusalém. Ali, matou o representante do rei, bem como um judeu que sacrificava às divindades gregas sobre o altar, sob a ordem dos gregos (1Mc 2,24-25). Assim começou a luta contra os judeus que aderiram ao modo de vida helênica e contra a opressão dos Selêucidas. Uma batalha improvável, dolorosa e impossível, como mencionamos na introdução. Para a surpresa da história, com vitória dos judeus.

Com a vitória sobre os gregos e a retomada do Templo, os judeus procedem à sua purificação; no desejo de reinaugurá-lo, assim como, retornar ao culto a Javé. É neste sentido que se insere a palavra  ḥănūkkāh, que chega para nós com o significado de inauguração.

Hanukkah Lights of Friendship and Faith | Guideposts

Para que o templo volte a funcionar, a menorah, candelabro de sete braços, teria que estar acesa. Usava-se azeite de oliva puro, especial para o Templo de Jerusalém. Segundo conta a tradição, aconteceu que ao buscar azeite para o manorah, foi encontrado um só recipiente. O suficiente para um dia. Para se fabricar azeite, seriam necessários oito dias. Como que por intervenção de Javé, aquele azeite que manteria o candelabro aceso por um dia, manteve-se queimando por oito. Por isso, os judeus hoje usam, nos festejos da Festa das Luzes, um castiçal não mais de sete luzes e, sim, de oito ou nove que se chama channukia (ḥănūkkyāh). Uma referencia à multiplicação do azeite, e – consequentemente – da libertação de Israel dos gregos. As oito luzes remetem-se aos oito dias em que a menorah esteve acesa. A nona é usada para acender as oito luzes já mencionadas.

 

 

 

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